1
Números são irrecusáveis nesse mundo de mercado. Os dados estatísticos destoam dos equívocos da intuição, repugnam a deriva no senso comum e ‘achismos’, legitimando razões que movimentem os orçamentos exigidos. No meu caso, em particular, o número é 100. Recebo um Whatsapp com a demanda de um freela de garçom no Café situado num renomado museu da cidade, pagamento de R$100. Não penso duas vezes (preciso de dinheiro para o aluguel e não posso recusar), ‘Fechado!’. Então, antes de esquecer a proposta central do tutorial, anuncio o primeiro passo: aceitar.
Aceite o que vem contra seus gostos, seu desejo, sua motivação ou o nome que queira dar a algo que te constitui proponente de sua vontade. Sobretudo seja convencido de normas e regras que te imponham. Esteja de acordo com tudo sem pestanejar. Para isso servem os manuais, encarregados do funcionamento correto das máquinas. Faz-te obediente ao que te recomendam e terás como fruto o sentimento de satisfação ou/e ódio.
2
Escrever soaria fútil se não fosse a centralidade desse ato na frase título. A página em branco já está bem sucedida. Quanto tempo dura para o caractere cair no papel? Veja que o discurso é dirigido a ninguém. Você olha para o suporte que te proporciona a escrita e ele na sua materialidade inanimada te escarnece. Você procura por audiência? É trabalho com ou sem divulgação? Sem ter um release para mostrar, nua sem pelos e com friagem, vai adiante. Sem mailing também. A fase ininterrupta de produção na esterilidade. O corpo tem recheio vazio e com significado. Carrega o todo significante de nada ser. O coma da vida cotidiana obstinada em rotinas mecânicas sem tempo de se deter em registros.
Aqui vislumbramos o cerne do segundo passo: fazer uma carta. Eu, bem aventurado mestre que pratico meus ensinamentos, assim fiz. No intervalo da refeição? Nem tive. Comi e tive que voltar correndo para meu posto.
Depois de suas verdadeiras obrigações, conte a partir de sua memória. Indispensável é entregar a carta ao destinatário. Logo que saísse do trampo, contava que daria tempo de encontrar a feira acabando. Queria aproveitar da xepa e entregá-la a qualquer alma que eventualmente estivesse imanada do espírito solidário. É dando que se recebe, pegando o gancho do profeta.
Estou nessa ânsia de vomitar texto porque demoro muito nesse processo de escrita. A folha me proporciona o espaço tão aberto a qualquer coisa, na luta de sem fome aprisionar a vida na linguagem. Tolices. Arrogâncias. Soberba. Eu não quero falar. A sinapse mal completa, racha esse chão de certezas e cai-se nas fissuras abissais da memória, o fundo de cor que se decompõe em todas as outras cores. Sento aqui e toda essa estória negocia fuga. Sinapses feitas de ventania. Palavras escritas no apagamento. Juntos estão na minha mesa imaginária todos os textos não escritos nesse dia. Enxergo-me dormindo fora de mim. Eu não produzi literalmente. Eu não tenho nada concreto. ‘Sem palavras’ não por ser indescritível ou difícil de encontrar uma definição, mas o imaginário resolveu não fazer quorum. É simples o segundo passo, sem temor constatará que vai nascer o impulso por não escrever nada. Fabricar o ócio. Programar o que não acontecerá. Desmentir o estado de inércia com agitação. Bravura. Ódio. Amor. Torpor. Sono. Vista míope. Consciência submersa em preocupações.
3
Quando eu estava caminhando, as idéias excitavam-se no pula-pula brainstórmico sem hora de término. Eu me movimentava de uma mesa para o outra. Tudo bem? Satisfeito? O senhor deseja fazer um pedido? Entrada, salada da casa com chips de batata doce. Algo para beber? Laranja ou uva? Sim, temos cardápio vegetariano e vegano. Não contém glúten. Terminadas estavam minhas 10h consecutivas. Será sorte encontrar a feira montada ainda. Imagina esperar até próxima semana para ter comida barata. Eis que as minhas idéias forçam-se por acender, lançadas nos porões do esquecimento. O coração ferido e rancoroso, por ter sido subestimado e jogado nesse trabalho de merda, sub-emprego. Ouvi dos sábios: É bom ser humilde, começar de baixo, ser solidário com os irmãos que não tiveram privilégios de uma formação básica. Digo agora minhas conclusões a partir de evidências empíricas: É bem melhor receber vara, sem lubrificante, no cu dessas baixezas que não se contentam com o chão como limite, precisa enterrar mais a minha cara solo abaixo. O terceiro passo é mais óbvio ainda: movimente-se. Não terceirize o que você mesmo pode fazer. Empreenda seu negócio, faça acontecer sua empresa sem intermediários, com seu próprio suor.
4
Aparece o rosto branco marcado com cicatrizes de espinha e um sinal maior que corta a parte lateral, abaixo do olho até próximo a boca. Tem um corpo bem definido de academia. Antes de observar ele escolhendo cenouras, o olho capta rápido o short sem cueca. Uma malha fina o reveste e deixa a marca. Não me preocupo se ele percebe que estou olhando fixo para o objeto, marco território. Sempre com os devidos cuidados para não levar um soco. Volta e meia enquanto escolhia minha verdura, voltava a me fixar nesse ponto. Será que paro, escrevo e entrego para ele a carta?
É preciso começar. O começo é sempre o branco. O branco que dá na memória não é nada menos do que uma interrupção, um congestionamento, um soluço, um refluxo, do que era para descer mas fica emperrado. É o meio, talvez. Mas as vezes temos branco antes de começar. E se tudo fica preto, é porque vai desmaiar. E pode ser o início ou o fim de tudo.
Enfim, andei de barraca em barraca, atento e forte. Procurando encontrar o melhor preço. E novos letreiros eram escritos no desfecho da feira. A medida que as muitas pessoas se batiam, olhavam, pegavam as frutas, legumes e verduras, os donos das barracas escreviam novos valores em folha de ofício. É dois real, pessoal! Quatro pacote por cinco. É dois, é de dois. Gritos de todos os lados, mãos rápidas, sacolas e carrinhos de mão carregando as compras.
Fui para o fundo de uma barraca, escrevi meu desabafo. Abandonei no primeiro banco de cimento que encontrei.
Neste barulho não se ouve o quarto passo. Ou se escutou, a perturbação impediu de guardar na memória.
5
Segue a carta.
Seja meu leitor generoso e vá até o fim. Todo esse tempo está entalado na minha garganta. Esse papel aqui, alguém o viu ou verá? Quantos se interessam na minha verborragia? Quanta falsidade nas eventuais audições. Risos de acompanhamentos discordantes sigilosos. Por que se importar com as queixas dramáticas e histéricas de um viado?
Entenda, por favor. Não quero dinheiro seu, nem comida, nem bebida, nem minutos de sexo. Só preciso da sua leitura. O ruído ultrapassa os limites do inegociável e chega até você. Foi um simulacro de engasgue. Eu, sinceramente, me recuso a prolongar o assunto. Tornou-se inclusive difícil para mim esse texto. A sua coerção e os resultados disso para minha vida sempre são prejudiciais. Mas escute: Não temo sua força e poder.
Imagem de destaque: Frame de Mulholland Drive, David Lynch.
Leonardo Victor
Email: leocomdc@hotmail.com
Instagram: @levisil7
Blog
Caro, você me lembra o meu amado poeta funcionário público. Sabe, o mundo é grande:
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
( Na íntegra: https://www.letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/460650/ )
GostarGostar
Acho que esse dado já é um spoiler do próximo que virá. Por enquanto ele é apenas uma idéia, vamos ver nos embates cotidianos o que irá se forjar
GostarGostar