5 Passos para escrever uma carta de ódio

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Números são irrecusáveis nesse mundo de mercado. Os dados estatísticos destoam dos equívocos da intuição, repugnam a deriva no senso comum e ‘achismos’, legitimando razões que movimentem os orçamentos exigidos. No meu caso, em particular, o número é 100. Recebo um Whatsapp com a demanda de um freela de garçom no Café situado num renomado museu da cidade, pagamento de R$100. Não penso duas vezes (preciso de dinheiro para o aluguel e não posso recusar), ‘Fechado!’. Então, antes de esquecer a proposta central do tutorial, anuncio o primeiro passo: aceitar.

Aceite o que vem contra seus gostos, seu desejo, sua motivação ou o nome que queira dar a algo que te constitui proponente de sua vontade. Sobretudo seja convencido de normas e regras que te imponham. Esteja de acordo com tudo sem pestanejar. Para isso servem os manuais, encarregados do funcionamento correto das máquinas. Faz-te obediente ao que te recomendam e terás como fruto o sentimento de satisfação ou/e ódio.

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Escrever soaria fútil se não fosse a centralidade desse ato na frase título. A página em branco já está bem sucedida. Quanto tempo dura para o caractere cair no papel? Veja que o discurso é dirigido a ninguém. Você olha para o suporte que te proporciona a escrita e ele na sua materialidade inanimada te escarnece. Você procura por audiência? É trabalho com ou sem divulgação? Sem ter um release para mostrar, nua sem pelos e com friagem, vai adiante. Sem mailing também. A fase ininterrupta de produção na esterilidade. O corpo tem recheio vazio e com significado. Carrega o todo significante de nada ser. O coma da vida cotidiana obstinada em rotinas mecânicas sem tempo de se deter em registros.

Aqui vislumbramos o cerne do segundo passo: fazer uma carta. Eu, bem aventurado mestre que pratico meus ensinamentos, assim fiz. No intervalo da refeição? Nem tive. Comi e tive que voltar correndo para meu posto.

Depois de suas verdadeiras obrigações, conte a partir de sua memória. Indispensável é entregar a carta ao destinatário. Logo que saísse do trampo, contava que daria tempo de encontrar a feira acabando. Queria aproveitar da xepa e entregá-la a qualquer alma que eventualmente estivesse imanada do espírito solidário. É dando que se recebe, pegando o gancho do profeta.

Estou nessa ânsia de vomitar texto porque demoro muito nesse processo de escrita. A folha me proporciona o espaço tão aberto a qualquer coisa, na luta de sem fome aprisionar a vida na linguagem. Tolices. Arrogâncias. Soberba. Eu não quero falar. A sinapse mal completa, racha esse chão de certezas e cai-se nas fissuras abissais da memória, o fundo de cor que se decompõe em todas as outras cores. Sento aqui e toda essa estória negocia fuga. Sinapses feitas de ventania. Palavras escritas no apagamento. Juntos estão na minha mesa imaginária todos os textos não escritos nesse dia. Enxergo-me dormindo fora de mim. Eu não produzi literalmente. Eu não tenho nada concreto. ‘Sem palavras’ não por ser indescritível ou difícil de encontrar uma definição, mas o imaginário resolveu não fazer quorum. É simples o segundo passo, sem temor constatará que vai nascer o impulso por não escrever nada. Fabricar o ócio. Programar o que não acontecerá. Desmentir o estado de inércia com agitação. Bravura. Ódio. Amor. Torpor. Sono. Vista míope. Consciência submersa em preocupações.

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Quando eu estava caminhando, as idéias excitavam-se no pula-pula brainstórmico sem hora de término. Eu me movimentava de uma mesa para o outra. Tudo bem? Satisfeito? O senhor deseja fazer um pedido? Entrada, salada da casa com chips de batata doce. Algo para beber? Laranja ou uva? Sim, temos cardápio vegetariano e vegano. Não contém glúten. Terminadas estavam minhas 10h consecutivas. Será sorte encontrar a feira montada ainda. Imagina esperar até próxima semana para ter comida barata. Eis que as minhas idéias forçam-se por acender, lançadas nos porões do esquecimento. O coração ferido e rancoroso, por ter sido subestimado e jogado nesse trabalho de merda, sub-emprego. Ouvi dos sábios: É bom ser humilde, começar de baixo, ser solidário com os irmãos que não tiveram privilégios de uma formação básica. Digo agora minhas conclusões a partir de evidências empíricas: É bem melhor receber vara, sem lubrificante, no cu dessas baixezas que não se contentam com o chão como limite, precisa enterrar mais a minha cara solo abaixo. O terceiro passo é mais óbvio ainda: movimente-se. Não terceirize o que você mesmo pode fazer. Empreenda seu negócio, faça acontecer sua empresa sem intermediários, com seu próprio suor.

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Aparece o rosto branco marcado com cicatrizes de espinha e um sinal maior que corta a parte lateral, abaixo do olho até próximo a boca. Tem um corpo bem definido de academia. Antes de observar ele escolhendo cenouras, o olho capta rápido o short sem cueca. Uma malha fina o reveste e deixa a marca. Não me preocupo se ele percebe que estou olhando fixo para o objeto, marco território. Sempre com os devidos cuidados para não levar um soco. Volta e meia enquanto escolhia minha verdura, voltava a me fixar nesse ponto. Será que paro, escrevo e entrego para ele a carta?

É preciso começar. O começo é sempre o branco. O branco que dá na memória não é nada menos do que uma interrupção, um congestionamento, um soluço, um refluxo, do que era para descer mas fica emperrado. É o meio, talvez. Mas as vezes temos branco antes de começar. E se tudo fica preto, é porque vai desmaiar. E pode ser o início ou o fim de tudo.

Enfim, andei de barraca em barraca, atento e forte. Procurando encontrar o melhor preço. E novos letreiros eram escritos no desfecho da feira. A medida que as muitas pessoas se batiam, olhavam, pegavam as frutas, legumes e verduras, os donos das barracas escreviam novos valores em folha de ofício. É dois real, pessoal! Quatro pacote por cinco. É dois, é de dois. Gritos de todos os lados, mãos rápidas, sacolas e carrinhos de mão carregando as compras.

Fui para o fundo de uma barraca, escrevi meu desabafo. Abandonei no primeiro banco de cimento que encontrei.

Neste barulho não se ouve o quarto passo. Ou se escutou, a perturbação impediu de guardar na memória.

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Segue a carta.

Seja meu leitor generoso e vá até o fim. Todo esse tempo está entalado na minha garganta. Esse papel aqui, alguém o viu ou verá? Quantos se interessam na minha verborragia? Quanta falsidade nas eventuais audições. Risos de acompanhamentos discordantes sigilosos. Por que se importar com as queixas dramáticas e histéricas de um viado?

Entenda, por favor. Não quero dinheiro seu, nem comida, nem bebida, nem minutos de sexo. Só preciso da sua leitura. O ruído ultrapassa os limites do inegociável e chega até você. Foi um simulacro de engasgue. Eu, sinceramente, me recuso a prolongar o assunto. Tornou-se inclusive difícil para mim esse texto. A sua coerção e os resultados disso para minha vida sempre são prejudiciais. Mas escute: Não temo sua força e poder.

Imagem de destaque: Frame de Mulholland Drive, David Lynch.

Leonardo Victor

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