Eu odeio o dia dos namorados

Qualquer lugar do Brasil, 12 de junho de qualquer ano: dia dos namorados. A pior data comemorativa, empatada com o dia do orgulho hétero, que um ser humano poderia inventar.  

Eu odeio o dia dos namorados.  

Cá estou eu, vivo, e melhor ainda, solteiro neste dia, em frente ao Teatro Oficina. Deveria ter percebido que havia algo de estranho quando vi que o único dia em que os ingressos não estavam esgotados era hoje. Nenhum casal vai ao teatro no dia dos namorados, a encenação é fora do teatro neste dia. 

Rio do meu próprio sarcasmo e começo minha triste jornada.  

Além de odiar o dia dos namorados, hoje também odeio minha amiga Ana. Ana precisava do carregador de seu celular, que havia esquecido em casa depois de uma noite de risoto e vinhos. Podia ser segunda ou sexta, qualquer um dos seis dias da semana, mas não, Ana precisava dele hoje. Marcamos de nos encontrar em frente à Praça Buenos Aires, que ficaria no caminho entre sua casa e a faculdade. 

Fiz o caminho no automático: desci a rua, cheguei no viaduto, continuei reto, passei pela rua da finada Hot Hot, parei um segundo e recordei com nostalgia de como era ser jovem nos embalos de sábado à noite, atravessei a Nove de Julho e quando olho para lado percebo que por ironia do destino estava no pior lugar naquele momento: Rua Avanhandava. 

A cada passo que dava para atravessar a rua, eu odiava cada casal, cada demonstração de afeto ao ar livre, cada risada íntima, cada tinir de taças cheias de vinho e cada casal impaciente na fila de espera para entrar em algum restaurante da Grande Famiglia. Eu era o próprio Chernobyl da negatividade naquele momento, o reator 4 ao vivo em pessoa. A HBO poderia fazer uma série de 5 episódios sobre mim.  

Apresso o passo, cruzo a Praça Roosevelt, subo a Consolação, atravesso no vermelho e chego na Maria Antônia. Meu coração palpitava, quase saia pela boca. Meu maior motivo de odiar Ana neste dia é pela possibilidade de encontrar com Danifunto, apelido carinhoso dado pelos meus amigos ao meu ex-namorado Daniel, com seu atual namorado. 

Até o momento eu era Chernobyl, agora queria ser Hiroshima e Nagazaki. 

Tive a grande ideia de caminhar pela rua olhando para baixo, sem a mínima probabilidade de ser reconhecido e reconhecer alguém. Enquanto caminhava, lembrava da Batalha da Maria Antônia e de como a USP, universidade na qual estudei, poderia ter revidado a morte de seu estudante, explodindo todo o campus do Mackenzie em 1968. Não existiria mais essa faculdade, corações partidos e nem Daniel. Ficava feliz em imaginar essa possibilidade, aceitei que o Nobel da Paz nunca seria meu. 

Chego na Avenida Angélica e espero Ana na frente ao Parque Buenos Aires. Vejo uns casais circulando na praça em meio ao vento gelado que circulava entre as árvores. O aquecimento global poderia dar as caras, baixar a temperatura para graus negativos e congelar todos os pares naquele exato momento. Todos morrem e passam bem, o Norte ganha e Game of Thrones recebe seu merecido final. 

Ana chega, entrego o carregador e temos uma conversa rápida, ela estava atrasada para sua aula. Nos despedimos, digo que a próxima janta vai ser por sua conta e peço um Uber, não suportava pensar em andar mais um minuto por essa cidade. 

Dentro do Uber, subindo a Consolação, o farol fica vermelho e com o carro parado resolvo olhar pela janela. Um casal chama minha atenção. A namorada 1 olhava apaixonadamente para a namorada 2 enquanto andavam de mãos dadas, prestando atenção em cada detalhe do que era falado por sua companheira. Lembrei de como era bom esse momento único de você se sentir amado. Daniel me fez sentir desse jeito, assim como Marcos que veio antes e Pedro foi o primeiro. 

Antes de eu perceber que uma flecha tinha atingido meu calcanhar de Aquiles e que com o ego ferido iria planejar a 3ª Guerra Mundial, lembro de um verso que li em um muro a muito tempo atrás que resumiria toda minha noite: Quem não quiser sofrer que se isole. 

É, Fernando Pessoa tinha razão. Quem não quiser sofrer, que se isole. 

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