Ao colo

Por Sabrina da Paixão 

Um sorteio breve define minha tarde, um jogo entre ilustres desconhecidos, simples papéis com indicações de lugares aleatórios escritos a mercê do momento, propondo a criação de um texto. Sorteio quatro palavras: Bela Vista- MAC USP. Ok. Traço uma provável rota tranquila, um agradável percurso para parir um texto. Tenho um belo mapa em minha mente.

O dia seguinte prova que mapas mentais não sobrevivem à incrível habilidade do universo em não dar a mínima para organizações previamente feitas em emaranhados de neurônios.

Depois de sair atrasada, carregando um computador agonizante até a assistência técnica; reiniciar um aplicativo que insiste em não me localizar no mapa; entrar em um sebo que misteriosamente surge em meu caminho (me fazendo adquirir obras que eu realmente precisava muito, a partir do momento em que as descobri em meio à poeira); aguardar por três horar a delicada cirurgia que salvaria minhas memórias virtuais descuidadamente não salvas em nuvem; me perder no Bixiga procurando a indicação de um restaurante; pintar as unhas de preto enquanto espero a ligação do técnico; tomar um chocolate em uma lanchonete acompanhada por Neil Gaiman (impresso); acompanhar o técnico em busca de troco para o pagamento do serviço em uma bomboniere que desgraçadamente tinha latinhas de Coca-Cola com café, acabo no meio da Brigadeiro Luís Antônio, com uma mochila cheia de livros, uma sacola com um cadáver tecnológico, uma latinha de puro açúcar e água gaseificada. Dou sinal para o ônibus.

— Moço, passa no MAC? Me avise onde descer por favor.

Ao longo da Brigadeiro, ia gestando um texto.

Com um meneio de cabeça do cobrador, sei que é chegada a hora de saltar. Me vejo enfim na passarela de acesso do Ibirapuera ao MAC-USP. Caminho sem pressa, observando o sol que se vai, e os carros que não vão, parados em uma constelação de luzes vermelhas. Passam por mim bicicletas e pedestres, pessoas correndo (Meu Deus, o que as motiva? Onde se compra esta disposição?). Chego à entrada do museu e sou recepcionada por um gato, gigante. Familiar.

Guardo a mochila, pego o caderno e descubro o que tenho de ver ali. A crônica vai chutando e se remexendo nos dedos, ansiosa por sair em tinta. O que fazia ali ainda não sabia, até avistar a chamada para a exposição sobre máquinas de escrever. Sorrio.

Na exposição, de entrada, uma crônica de Clarice, que diz de sua máquina de escrever, de uma certa marca, mais leve, mais fácil de deixar ao colo, como ela gosta de usar. Como eu gosto de escrever. Como escrevo agora, no caderno. Ao colo.

Me recordo da conversa há pouco com o técnico, sobre a necessidade de adquirir um novo computador, e como pedi sugestões de máquinas mais leves, mais fáceis de carregar. Clariciei momentos antes sem imaginar.

E de um não roteiro que me indicou alguéns, neste exercício fortuito de escrita, do MAC à Bela Vista, foi que vivi este atípico dia, do qual saíram estas palavras que entrego agora, fechando o percurso, na Av. Paulista, 119, a você Ronaldo.

3 pensamentos sobre “Ao colo

  1. Cara Sabrina, veja o que recuperei de uma anotação minha postada no Facebook em 13/07/16:

    É ou não é realmente admirável e ao mesmo tempo curioso, que a Clarice Lispector mantivesse a máquina de escrever o tempo todo no colo, enquanto cuidava da casa e dos filhos, numa relação uterina com a escrita (“eu acho que, quando não escrevo estou morta”), sendo vitimada por um fulminante câncer de ovário, morrendo na véspera do seu renascimento, um dia antes do seu aniversário… A máquina, o útero, a escrita, a vida – e também a morte -, e tudo o que não se explica.

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