Oi? Quem é você mesmo?

Escrever é sempre um momento decisivo. Depois da profusão de idéias, as palavras moldam-se a contra-gosto, é claro. Nesse jogo labiríntico, se abrem outros caminhos, se ampliam horizontes. A imagem escrita torna-se como a película da bolha de sabão. Bela, aérea, livre, deslocamentos lentos, transparente, leves abaulamentos no seu corpo esférico, prestes a sumir.

Sem delongas no que diz respeito sobre o vício metalinguístico do autor dessa estória, o assunto hoje é o que os pseudo-evangélicos chamariam, esse sim, de vício. Mas não teria sido o primeiro milagre de Jesus dar vinho a galera já bêbada em Caná? Para comprovações tal qual Tomé, só abrir a bíblia no Evangelho de João, capítulo 2 (ainda terá uma segunda surpresa de brinde durante a leitura).

Para bem continuar, deixa-se de lado os arregimentadores da velha e sempre nova capacidade de ignorar o que não os convém…

O assobio deixou a prévia de que assunto a tratar é bebida. A bebida de todos os dias no qual o corpo humano detém em torno de 50%? Menciona-se de antemão essa, para que evite-se uma desidratação… Aquela água que passarinho bebe? Ou não bebe? Realmente fica a dúvida sobre a formulação desse dito popular.

Toda essa ufania faz pautar os tempos gloriosos da sobriedade do personagem central aqui. Ele ostentava com orgulho e uma pitada de condenação a personalidade católica diante das figuras mais frequentadoras do botequim do que da sua própria casa. Vidas de homens subalternos, entregues aos vexames frutos dos excessos. O olhar desse rapaz é de quem vê as coisas de fora, emite juízos distanciados, sem a necessária redenção. Isso sim é vergonha. Correção. A palavra correta é ‘imersão’, no caso em questão. O resto é intromissão na vida alheia.

Esse estado de ser pueril é semelhante a uma cidade do interior. Lá ainda se ouve o canto dos pássaros e o balanço da copas das árvores. As senhoras nas janelas de suas casas a espiar os transeuntes. As crianças descalças a correr na praça. E os senhores acompanhando esse micro-cosmo na ls cadeira de balanço à porta de casa, com o cigarro de fumo na boca quase que incensando o ambiente.

A desculpa para o primeiro gole é o calor. A resposta em forma de pergnta que já justifica o ato: Como aguentar esse mormaço sem uma bebida gelada? Pronto. Encheu o copo, tem que brindar sem tocar na mesa e o tin-tin no gargalo da garrafa. Sim, copos com copos porque é muito deprê beber só.

A estória de marinheiro de primeiras viagens desse jovem era fundamentada por tal argumentação: Beber não é um ato isolado em si mesmo, mas um pretexto para (re)unir os amigos. É a aposta na Utopia da fraternidade. Ocasião que todos estão convocados a expôr a própria opinião, sem filtros. Aos calados, extraí-se o mínimo ‘ai’ e essas duas letras ganham a proporção de um poema dantesco.

E no enquadramento que seja, entre o fim de uma cerveja e o início de outra, reiventa-se a roda no movimento sem freio até acabar o dinheiro. Quando esse acaba… o apelo afetivo é mais intensificado recorrendo ao dono do bar: ‘fiado só amanhã’ ou na amizade suicida da metrópole, o crédito especial.

Se homem fica puto, aí que quer beber mesmo. Para esquecer as contrariedades? Talvez. Para digerir o que ainda pertuba? Talvez. Para levantar o humor que anda beijando a calçada sem nem ter tocado um copo? Para os que fantasiam a idéias de felicidade.

Durante a sessão degustativa, circunscrevem-se os vários perfis: os que bebem bicando, os que pisam o pé no acelerador da métrica copos/minuto, os técnicos… Esses avaliam a cor, o sabor, a marca, a água e nos casos que beiram os pacientes lacanianos, lêem o rótulo. Não em menor escala, ainda surgem os que querem na verdade é transar no fim de tudo, nem que a realidade os relegue a uma intimidade com sua própria mão.

Tudo são táticas e estratégias bem articuladas, utilizadas desde do homem da cavernas. No entanto sistematizada pelos coachs. No caso dos menos resistentes ao efeito alcoólico, serão rapidamente transladados para a terra do nunca. Porque guarda-roupa só se tornou passagem para fora…

O resto é espuma de quem não teve calma para derramar a água do passarinho no caneco. Prefiro copo americano.

Os des(a)tinos finais se parecem mais com os filmes lynchianos, quando se é possível ter memórias deles. Sair andando desgovernado na madrugada pelo centro da cidade: República, Santa Cecília, Consolação e Marechal Deodoro (sim, acredite, até lá!). Perdi celular (depoois ficar uma meses sem). Conversar com os mendingos (3h no Minhocão?). Transar sem camisinha (depois ficar 3 meses tenso esperando o resultado do exame). Gastar todo dinheiro que tem (mais recorrente). Duas vezes tentaram convertê-lo em hétero (sem sucesso, é claro!). Bradar um discurso de revolta em lágrimas nas mediações da praça Roosevelt (normal não faria). E sem enumerar tudo, é óbvio, porque ainda o senhor da estória tem uma reputação a zelar… o pior mesmo é acordar em uma cama que nunca esteve antes… ‘Oi? Quem é você mesmo?’ Pensou na última vez que esteve nessa situação,

A saga do resitente raramente termina com ressaca, o que recebe a seguinte denominação no vocabulário vocabulário del e: morte-renascimento. Seguem também frases de efeito que nunca vingam: ‘nunca mais vou beber’, ‘não faço mais isso’, ‘será que não preciso de um tratamento?’, ‘não saio mais com fulano’, ‘agora só bebo uma e pronto’…

Imagem de destaque: Frame de ‘Zabriskie Point’, Antonioni.

Leonardo Victor

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