Seis sabem

O sono das memórias

O rapaz entra em casa ainda de dia. Não é um lugar-comum. Ele trabalha na madrugada. O dia, para ele, é noite e ele só vive mesmo depois das 19 horas.

Entra direto para o quarto. Sua casa são 5 metros quadrados. Abriu as malas, já que nunca se importou de ter guarda-roupa. Deslizando 360 graus do zíper, tirou tudo. Olhou cada peça, uma a uma. Depois de ter feito uma montanha de roupas, voltou tudo de volta embolado de qualquer jeito. Deitou no chão e olhou debaixo da cama. Os pés baixos do móvel não deixam a luz penetrar. Desbloqueia a tela do celular, nenhuma notificação. Mexe nas caixas de mantimentos: Cinco quilos de arroz, um quilo de farinha, bolacha ou biscoito? Massa de macarrão e uma banana já preta. Coloca tudo para fora, bate a caixa para tirar o sal que havia furado o saco. Depois joga tudo de volta sem calma para arrumar. Ele fica nervoso só de pensar na idéia de pegar carona de um desconhecido. Ao mesmo tempo goza com o perigo. Puxa o cobertor da cama. Sacude. Cai a toalha molhada, ex-enrolada. Rapidamente corre para não deixar jogada no chão.

No canto da parede tinha uma pilha de livros, revistas, folhas avulsas, cadernos e notas ficais de supermercado. Só de olhar, a construção de papéis e poeira se derrama pedindo um abraço. O edifício luta contra a vontade de se erigir. O encontro de paredes o movimenta para a tela que se oculta. Mira e vê sem enxergar um objeto diante de si. O mural de fotos. É bonito não recordar todas as experiências do imenso rolo de película das estórias da vida em 24 fotogramas por segundo. A última tentativa foi enfiar a mão no travesseiro. Não era espuma, era pena.

Hálito

Ele chegou como sempre muito falante no trabalho. O chefe dava corda. Nesse dia foi diferente. Ele se aproximou. Ficou rente. Corpo com corpo pareado. Os olhos vidrados traçando um horizonte que passava ali. O chefe aproxima o rosto bem perto. Sabe quando você se aproxima da fogueira, e sente aquele calor arder na pele? Cada vez mais perto. O nariz quase tocando, boca com boca… O chefe queria saber se ele tinha vindo trabalhar bêbado.

-Porque você chegou atrasado hoje?

-Demorei de conseguir carona…

Uma carona, por favor.

O sol bate no rosto dele. Não tem fumê no para-brisa. Vento forte na cara. A janela está aberta. Ele tem medo de fechar. O que poderia mesmo acontecer?

– Vê só esse vídeo. Eu toco um louvor. Foi quando tava preso.

Os olhos dele represa as águas do rio São Francisco. Apreensivo pois os 100 km/h talvez premeditassem o prenúncio do tesouro no fim do arco-íris. O motorista reduzira a velocidade e fechado o vidro lateral, esse sim fumê. Agora, ele se inclina para aproximar mais a fim de que o carona enxergue a tela do celular.

– Peraí, tem que aumentar. O som tá baixo.

O passageiro olha para ele com pavor. Não é o olhar apavorado das novelas mexicanas ou um remake clichê de ‘Psicose’. É um rosto paisagem que não se vê nada mais que o painel do carro, o cheiro de homem suado e as imagens circundantes mergulhadas no preto e branco. A sensação da fera a caminho do abate. Os dentes da presa prontos a fisgar o jantar, dias já sem comida.

O passageiro procurou saliva para engolir.

– Segura aí para você vê direito…

“Entra na minha casa, entra na minha vida. Mexe todas as estruturas. Sara todas as feridas.”

– Cara, te ofereci carona para te ajudar. Faço mal a ninguém não. Fiquei preso mas nunca matei ninguém não. Pode até dar um cochilo, se quiser.

Terminada a exibição, o vento volta a bater barulhento na carroceria. Quase não dá para ouvir o motorista, ao menos que ele grite.

Oi, um conselho

O problema passou, sim. Me explica a razão da crise. Toda vez que você volta para o papel tem esse mania de ficar falando de si. Precisa ficar se remetendo ao texto. É um vício. Quer saber os motivos do texto se tornar texto. Quer ficar teorizando. Conjecturas. Essas suturas sendo costuradas. Porque você não tenta fazer algo ao gosto do freguês? Que dê dinheiro? Mercado editorial. Olha o nome. Se é mercado, tem compra e venda. Fica aí pedindo carona a um e a outro. Podia deixar logo essa história romântica de arte e ir trabalhar. Recolher papelão, dá dinheiro. Nova onda sustantável. Depois monta livro com papel reciclado. Olha esses caminho todo que você faz até aqui, andando mesmo, a pé. Pega um carrinho e vai recolhendo o material que você encontra no caminho, vai juntando… É uma forma de fazer dinheiro. Faz isso.

Saída do Campo

Esse sotaque não engana, oxe! Nasceu na Bahia. Morou com a avó. Sim, menino criado por vó, sabe como é… Ela mesmo deu a passagem para ele partir. Não foi de ônibus, mas de carona. A melhor amiga tentou impedir uma suposta tragédia. Não aconteceu nada de anormal. Foi com emprego certo em Recife. Cada videoconferência, os olhos enchiam d’água. A desculpa era um cisco no olho. A lente de contato irrita.

Cidade chata essa. Não tem lugar para sair. Bichas chatas, boites sem graça, calor, sol de matar… Cadê a vista da baía de todos as entidades? É rios, pontes e overdrives. Cadê o isopor de cerveja na calçada do Rio Vermelho? E o cinema Glauber Rocha, vista do rooftop. A praia tradicional de toda manhã.

Trabalhou, estudou, desistiu. Desce para o sudeste. Nossa, que cidade chata. Gente fria. Calor de Salvador. Depois das 17h chove. Todo dia cai água. Cinza. Mar de prédios. Como era bom cruzar aquelas pontes a cada 5 minutos. É rio ou mar? Prédio histórico ali, barzinho rústico aqui, ar quente-úmido. Se pudesse voltar nesse tempo que as pessoas olhavam nos olhos, escutavam o que ele dizia… Cidade anônima: ele é mais um na avalanche de gente que escoa por ruas, metrôs e parques. Tem até verde combinado com rio poluído. Em Recife é que era bom!

Morte independente

– O Talmud diz: ‘Não matarás’.

– Que louco…

-O quê?

– Você não era ateu?

-Preciso de um cânone.

– Canon o quê?

-Chegou minha carona.

Gif de destaque: clip Erotica, Madonna.

Leonardo Victor

Email: leocomdc@hotmail.com

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