Jorge foi concebido, se é que se pode dizer isso, num dia próximo às férias de julho. Não era nem Jorge quando chegou. Alguém o trouxe, talvez a professora de geografia, Lana, que é toda ligada em bichos, fauna, flora e tals, e ele ficou lá na janela do 6oB, à vontade. Imagino o que sentiu quando viu toda aquela molecada avançar classe adentro em sua direção. Deve ter apertado as raízes por debaixo da terra, até por que virou suas folhas todas de uma vez para o sol, com medo.
Talvez nessa hora tenha meditado e pedido proteção à mãe terra, mas já era tarde. O pior pesadelo aconteceu: retirado do lugar que tinha tudo para ser sua praia favorita, à beira da janela, viu-se sendo agarrado pelo vaso e levado por ninguém menos que Danilo, a peste, para o meio da turba de pré-adolescentes. “Nossa, ele parece um framingo, com esses dois tocos finos!”, alguém falou. Todos riram ao mesmo tempo, sabe-se lá se do erro da colega ou da comparação abestalhada de uma planta a uma ave. No meio da gargalhada, outro pirralho declarou: parece é o meu tio Jorge, magro feito um bambu. E assim então, após breve assembléia de cunho decisório, se chegou ao nome de batismo de Jorge, a pranta.
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O spa
Fico imaginando a origem de Jorge, a pranta, e o que ele mesmo esperava de seu futuro. Pelo seu tipo de personalidade, deve ter vindo de Holambra. Holambra é aquela cidade próxima à São Paulo que se pretende uma atração turística. Eu mesmo nunca fui, mas que Jorge tem cara de ter sido alimentado à base de stroopvafel, tem.
Creio que era companhia de alguma senhora de origem holandesa que, nos intervalos das atividades campestres, tomava chá com Jorge, o escolhido entre tantas mudas. Ela devia esmigalhar casca de ovos tostados no velho forno à lenha e espalhar o pó, com seus dedos gordos e gordurosos, por sobre a terra, conversando com ele sobre como ele crescia bem, e como a chuva tornara a cair forte naquela safra, aumentando um prejuízo já acumulado pela família há alguns anos.
Jorge, a pranta, que não entendia necas de holandês, apenas aproveitava o instante, suspirando clorofila e fazendo cara de samambaia.
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Alho, não bugalho.
Sem dúvida Jorge destoava entre as demais espécies – era sempre o mais balouçante, com suas folhas que pareciam dizer algo digno, quase a suspirar poesias, em que céu, terra e água se faziam rimar.
Certeza eu tinha que era essa a razão pela qual ele tinha sido escolhido por frau Helga, entre tantos brotos da imensa plantação de gerânios, aspargos e pitangueiras – as mais procuradas pelos paisagistas dados a chique do Morumbi. Sem contar aquela feiura pasteurizada dos buxinhos, mas esta não estava em época.
Jorge era diferente mas não pela razão primeira. Era, em realidade, um pau-brasil de tipo raro que, não se sabe como, resolvera nascer entre colegas mais ordinários. Sempre tem um desses entre nós: aqueles paus-tortos que nunca se endireitam.
Frau Helga sabia, porém, que uma maçã que não se encaixa numa caixa de laranja é uma maçã e não uma laranja.
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A aventura.
Alçado à condição de estrela do viveiro, Jorge aos poucos se acostumou com a vida de rock star. Foi retirado do meio da mudaiada, passou a habitar o canto norte da estufa, onde batia mais sol e incidia menos vento. Para garantir que suas raízes se fortalecessem, passou a receber água filtrada e adubo orgânico à conta-gotas, numa espécie de suporte hospitalar, daqueles que pingam soro na veia do doente.
Assim que completou seis meses de vida, o doutor Floriano declarou, em uma visita: ele terá que ser transplantado para um grande vaso, onde habitará até os dois anos, ao que ganhará solo definitivo, afastado, que fique claro, em ao menos três metros das demais plantas.
Segunda-feira Frau Helga acordou cedo e, ainda escuro, cuidadosamente tirou Jorge do seu canteiro. Ajeitou suas raízes para dentro de um saco preto e o fez deitar-se na traseira de sua velha caminhonete. Ia leva-lo para a escolha do novo vaso, no Ceasa, em São Paulo.
Jorge nunca tinha saído de Holambra, e, apesar de assustado, encontrava-se animado para sua primeira aventura na capital. Tinha certeza de que veria um novo mundo: imaginava as diferentes espécies de flores que encontraria, com sua diversidade de cheiros, cores e sotaques. Como seria conhecer uma Rosa-do-deserto, por exemplo? E aqueles bambu-mossôs que vivem nas varandas dos prédios exuberantes? E as Tumbérgias Azuis, trepadas nos fios de telefone que flutuam entre os postes?
Em seu devaneio, não se deu conta, aliás nem ele, nem Frau Helga, do que havia gritado um agitado herr Rutger à saída do sítio:
- Onde vai com o baú da caminhonete aberto, mulherrr?!
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Havia um buraco no meio do caminho.
São Paulo é uma piada feita para o Waze contar: atenção, buraco reportado na via à frente. Ah, vá. Qual deles?
A cidade é coalhada de hiatos asfálticos, dos mais diferentes tipos – os que se parecem com pequenos ninhos de pássaro cavados no chão; os que imitam canaleta de boliche, afundados junto às guias; os engole-roda, que, como o nome mesmo diz, são verdadeiras armadilhas para os pneus, postados insolentes no meio das ruas. Estes últimos, sem dúvidas, os causadores dos maiores prejuízos para suspensões, colunas e orçamentos.
Frau Helga, como sempre, ignorava a regra implícita de desviar dos buracos da cidade, mesmo que significasse matar um ciclista para tal. Andar em estrada de terra com uma velha caminhonete a tornou acostumada com os solavancos.
Lá atrás, no entanto, no baú aberto da velha S10, Jorge perdia a respiração e tentava desesperadamente esticar suas folhas para segurar-se onde quer que fosse. Em vão.
No 26o buraco do caminho, na avenida Francisco Morato, altura do número 4367, em frente ao posto de gasolina de que não me lembro o nome, aquele que tem um restaurante nordestino como vizinho imediato, Jorge caiu. E ficou ali, sangrando.
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Envelheço na cidade?
Estatelado no asfalto ainda morno da manhã, Jorge sentia tremer o chão pelos caminhões e ônibus que circulavam àquela hora, rumo ao início do Rodízio. Tinham pressa. Uma multa no valor de R$ R$ 130,16 e acréscimo de 4 (quatro) pontos na carteira de habilitação do motorista eram decisivos para os motoristas.
Imóvel, a planta-estrela se viu diante de sua falta de habilidade com o mundo cão da cidade grande. Procurou de algumas formas ajeitar-se no corredor, o espaço deixado entre os carros, com a esperanças de não ser atropelado. As motos, porém, donas daquele vácuo, atravessaram suas intenções com buzinaços e chutes em espelhos retrovisores.
Jorge não sabia o que fazer. Tentou pela última vez rolar com a força do vento para dentro de um buraco logo ali, perto da calçada, mas logo desistiu; o intenso movimento dos carros próximos da escola da região impedia qualquer brisa.
Tinha se dado por vencido quando foi subitamente agarrado por mãos que, habilmente, o recolheram de sua miséria e desesperança. Dizendo palavras mansas, a moça de cabelos quase ruivos, alguns brancos e sobrancelhas sem depilar, emendava sua cantilena: pobre coitado! Quase morreu atropelado! Vou levar você para um lugar melhor. Acho que você vai gostar.
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O novo lar.
Aprumado embaixo da axila olorosa a lavanda e óleo de côco, Jorge entrara em seu novo habitat. Descabelado, esbaforido e mal ajambrado, preferia estar sozinho por alguns momentos para se recompor antes de ser apresentado à seu novo viveiro. Deve ser grande esta fazenda, projetou para si – há muitas crianças correndo pelo terreno.
Mas ele foi relegado a um parapeito cinza, de mármore frio, numa sala de aula de uma escola na zona oeste de São Paulo. Suspirando o mais fundo que pode, deu-se conta de ainda estar vivo e tratou de afastar a tristeza e a dor para apreciar este fato, agraciado pelo sol morno que tomava conta de suas folhas.
Não contava ser interrompido pelo barulho desgracento do sinal de entrada dos ansiosos estudantes, que adentravam a classe feito manada de boi que vai pro abate. Queria ser discreto, mas todos haviam identificado o elemento estranho na sala. Jogaram suas mochilas no chão e se aproximaram em bando da pequena planta, gralhando palavras e risos desconexos. Jorge armou seus espinhos, ainda que realmente pouco desenvolvidos, dada sua idade, e partiu para a defesa.
Esperava qualquer coisa daquele bando de selvagens e por isso estava disposto a lutar e garantir sua honra a qualquer preço. Foi pego de supetão pelo mais canalha de todos, que o levou ao centro da roda de curiosos descabelados.
Uma das alunas soltou um comentário que fez todos rirem. Ela o havia comparado a uma ave ridícula – e ainda dissera o nome errado da pobre. Estava realmente entre malucos sem educação e sem coração. Fora relegado a uma simples planta sem nenhuma importância. Mas eles não sabiam com quem estavam falando.
Jorge, tomando fôlego, pôs toda força num grito e ordenou:
– seu moleque! Ponha-me no lugar! Tire-me daqui imediatamente, eu ordeno!
Mas qual o quê: Danilo, a peste, não só o mantinha refém como o apelidara de Jorge, a pRanta.
– Pranta, seu menino horrível? Pranta?! PLANTA! Corrija-se!
Sem que nem ele, a peste, nem outro selvagem demonstrassem entendê-lo, gritou ainda mais forte:
-Ponha-me no chão imediatamente, infeliz! Agora! Ou eu não me chamo Dom Carlos Alberto II, a árvri.