Clarice e Antonio: uma história de desamor

                                                                                       Sonia Nabarrete

I-O paradoxo de Clarice

  Clarice tem mania de arrumação. Na cozinha, os utensílios e cada prato ou talher têm o seu lugar. O chão é tão limpo que até espelha. O guarda-roupa é um modelo de organização: as roupas são separadas por estações, cores, tecidos. Em qualquer parte da casa – ou da vida – tudo tem que estar no seu devido lugar para que ela sinta a calma perfeita dada pela sensação de que tem tudo sob controle.

Calma maior que essa só após uma boa foda. É quando Antonio chega e tudo acontece sem um roteiro pré-estabelecido. Cada encontro é uma surpresa. Às vezes, ele está romântico, diz palavras de amor. Chupa sua buceta com devoção. Outras, age como se ela fosse uma cadela no cio. Come Clarice de quatro, dizendo safadezas e palavrões. Mas, de um jeito ou de outro, ela sempre goza. Goza inteira. E pouco se importa com a  as roupas espalhadas, a bebida esparramada, as manchas no lençol. Dorme aconchegada a ele, na paz de mulher bem comida. Dane-se a arrumação.

                                                II- Um brinde às diferenças

  Acamparam na praia deserta. O odor forte de maresia se misturava ao cheiro da mata. Uma aventura chegar até ali. Depois de enfrentar o mar em barco pequeno, que balançava muito, caminharam por horas em uma trilha, que era tomada pelas raízes de árvores enormes. O chão estava escorregadio por causa das últimas chuvas. Rezaram para não encontrar cobras.

  Montaram a barraca em um local próximo a uma nascente, de onde tirariam água para beber, preparar a comida e tomar banho. Das pedras que ficavam ao lado esquerdo da praia, lançavam os anzóis com iscas para peixes e com eles se alimentavam. Se a pescaria não fosse boa, sem problema. Tinham latas de sardinha e macarrão.

Durante cinco dias, acordaram e dormiram com o barulho do mar. E brincaram na água como crianças. As ondas levando seus corpos. Quando o mar se acalmava, trepavam dentro da água. Ele em pé, ela enlaçada nele. Depois, deitados na parte mais rasa, onde pequenas ondas se misturavam às ondas de prazer.

O acampamento em condições tão selvagens foi uma prova de amor da parte dela, mulher com mania de limpeza e organização.

No último dia, uma surpresa. Pela trilha viram chegar dois homens, altos, fortes e com facões nas mãos.

Estamos fodidos – pensaram – vão comer nosso rabo e nos matar.

Ambos nus, de mãos dadas, viram os homens se aproximando. Não tinham para onde fugir, a não ser para o mar, onde morreriam afogados.

Mas, quando chegaram bem perto, os dois homens se apresentaram.

Alívio. Era um casal gay em lua de mel, que dividiu com eles a garrafa de champagne, retirada de um isopor, ainda gelada.

                                         III- Aí tem

A primeira coisa que ele fazia ao chegar na casa dela era desligar o celular.

— E se alguém do seu trabalho ou da família precisar falar com você?”– ela perguntava. E ele dizia:

—Não se preocupe. Quando estou aqui, quero me dedicar exclusivamente a você.

Então, fora dali, a quem mais se dedicava? Ao trabalho, com certeza. Aos filhos do primeiro casamento com quem ficava em semanas alternadas? Aos amigos, com quem se encontrava toda semana, para beber e falar merda?. Quem mais faria parte da sua vida quando não estava com ela?

Alguma coisa lhe dizia que ele tinha um segredo e a chave para descobri-lo estava no celular.

Jogou pesado:

— Preciso falar urgente com o minha mãe e meu celular está sem bateria, me empresta o seu?

— O meu? – ele perguntou, sem necessidade, e Clarice percebeu que Antonio ficou pálido e começou a piscar – Acho que está sem bateria – alegou.

— Deixa eu ver.

— Faz mesmo questão?

— Faço. Acho que você está escondendo alguma coisa.

— Imagina, esconder o quê?

— Me dá logo essa porra! — ordenou ela.

Ele ligou o aparelho, virou para colocar a senha e entregou. Apareceram as últimas notificações. Em uma delas, alguém que o chamava de meu gostoso.

                                       IV- Detetive de araque

Antonio tinha uma boa desculpa para a mensagem comprometedora que Clarice viu em seu celular. Alegou que era uma maluca, caso antigo, que de vez em quanto tomava umas a mais, ficava carente, e mandava mensagens inspiradas em lembranças do passado.

A desculpa convenceu. Ela própria infernizou a vida de um cara quando tudo acabou, mandando mensagens que deixavam a atual namorada dele muito irritada..

Mas às vezes, até mesmo durante as trepadas, ficava encafifada. Enquanto ele lambia todo seu corpo como se fosse um sorvete de massa, um pensamento vinha incomodar sua concentração: Será que ele faz a mesma coisa com outra?

Precisava tirar a limpo. Pensou em contratar um detetive, mas resolveu ela mesma fazer o serviço. Alugou um carro muito diferente do seu e à noite estacionou próximo à casa de Antonio, para ver se alguma mulher entrava ou saia.

O movimento foi cessando e a rua tornou-se silenciosa. Naquela monotonia, e cansada das arrumações que tinha feito em casa, acabou dormindo. Não viu quando o namorado acompanhou uma mulher até a porta e despediu-se dela com um beijo na boca. Na manhã seguinte, foi acordada por um guarda de trânsito que a multou por estacionar em local proibido.

                                         V- Troco errado

— Ele está mesmo me traindo, mãe.

— Ele confessou?

— Nada. Negou até o último pentelho.

— E como você tem certeza, filha?

— Consegui acessar as mensagens do celular dele.

— Descobriu a senha?

— Fui radical. Contratei um pivete para roubar o celular. O moleque chegou nele armado, pegou o celular e mais a grana que ele tinha na carteira e uns cartões.

— Coitado.

— Coitado o caralho, mãe. Coitada de mim.  Tive que morrer com uma grana para dar ao moleque muito mais do que custa um bom celular novo.  Depois contratei um hacker para ver todo o conteúdo das mensagens.

— Caramba, que investigação cara.

— Mas funcionou. Descobri que a história com a tal mulher que o chama de meu gostoso no WhatsApp nunca terminou. É caso antigo, desde quando ele ainda estava casado com a primeira mulher. A vagaba também é casada, mulher do chefe dele.

— Putz! O cara gosta de viver perigosamente. E o que você vai fazer?

— Vou me vingar.

— Bobagem, filha. O cara é bom de cama, você gosta dele. Mete um chifre nele também e está tudo resolvido.

— Não, mãe. Está doendo demais. Só dar o troco não basta.

— Vai fazer o quê?

— Primeiro, uma chantagem. Usando falsa identidade, vou chantageá-lo. Exigir uma boa grana para não mandar o material para o chefe corno. E, depois, mesmo ele pagando, vou mandar.

                                          VI- Duplo assassinato

O empresário Raul Figueiredo de Ângelis, presidente do Grupo Construforte, está foragido, depois de matar a tiros a mulher, Ângela Figueiredo de Ângelis, e seu principal assessor, o economista Antonio Rocha. Testemunhas ouvidas pela polícia disseram que ele soube do caso por meio de uma carta anônima e de um pendrive com gravações de conversas do casal no WhatsApp.

A notícia estava em todos os cantos. O assassino era importante, dono de uma das maiores fortunas do País. Sua mulher, ex-modelo internacional, também. E o assessor vinha ganhando relevância ao aparecer com frequência nas revistas de negócios.

Em seu apartamento, Clarice junta as revistas de onde recortou as letras para compor a mensagem na carta anônima. Coloca fogo em tudo. Depois limpa sem deixar qualquer vestígio. A casa está limpa e organizada como sempre. Sente-se feliz. Não gosta de ver nada fora do lugar.

                                          VII- Chore. Você está sendo traído.

Um bom estrategista não faz o que deve ser feito. Instiga alguém a fazer. Foi esta a ideia de Clarice ao enviar a carta anônima, coisa que já tinha feito outras vezes. Era seu método favorito para colocar fogo na fogueira e se vingar de quem a tivesse ferido.

  A pessoa que recebe a carta fica puta, odeia o remetente que não se mostra, mas não consegue ficar indiferente à mensagem que a faz se sentir uma idiota.

Clarice comprou revistas em diferentes bancas e camuflou tudo em uma sacola de feira. Colocou algumas frutas por cima para disfarçar. Em casa, escreveu a frase que deveria montar: “Sua mulher te trai com o Antonio Rocha”. 

Foi recortando as letras e colando em uma folha branca A4. Fez tudo usando luvas cirúrgicas para que, no futuro, suas impressões digitais não fossem detectadas. Depois, colocou em um envelope grande e mandou ao empresário junto com o pendrive que continha as gravações do casal. Como remetente, colocou o nome de uma irmã do destinatário. Só assim, caracterizada de correspondência pessoal, chegaria às mãos dele, sem passar pelo crivo de uma secretária.

A comunicação evoluiu tanto. Hoje se usa o celular para tudo. Mas Clarice apostou em seu método favorito para se vingar. Torceu para que Antonio perdesse o emprego bem remunerado e a rival tomasse um pé na bunda do marido rico.

Teve êxito em sua vingança, mas não como imaginava. Quem diria que aquele empresário fosse resolver tudo à bala.

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