Minha primeira memória, a mais antiga de todas, é de um olhar curioso para um corredor e um filete de cozinha. Um olhar que quer apenas amar, mas confuso com os corpos incompletos e vultos que passavam rápido pelo campo de visão. Minha mãe conta que de manhã ela sempre me encontrava no quarto, de pé na beira do berço, sempre em silêncio, observando atento o corredor. E quando eu a via eu sorria, como alguém que encontrou um amigo na multidão.
Minha segunda memória, a mais sensorial de todas, é de uma respiração quente no meu pescoço. Nessa época passávamos todos os domingos no sítio dos meus avós entre primos e primas, tios bêbados que peidavam alto e tias que faziam todo o serviço doméstico. Numa noite, época de carnaval, lembro de ver na TV um homem barbudo, maquiado, com um vestido cheio de penas, pedrarias e ouro, parecendo uma rainha desfilando elegante na passarela. Ele andava com as mãos elevadas e rodopiava de forma caricata. Eu o achei brilhante. Era Clóvis Bornay, representando algum tipo de Sol. Eu e minhas primas pegamos lençóis, nos enrolamos neles e começamos a imitá-lo no meio na sala. Eu me senti feliz. Mais pra frente na vida eu seria chamado de bicha, mas ainda não. Rodopiei muito até antes do jantar que era a hora do banho das crianças. Nesse dia um primo falou que iria comigo para o ofurô, muito necessário nas casas da colônia japonesa. Lembro que fiquei animado, pois os pequenos eram boicotados pelos mais velhos pra tudo, principalmente nas brincadeiras. Iríamos brincar de uma coisa muito legal, ele disse, de carrossel. Entramos na água quente e ele falou que eu precisava sentar de costas no colo dele. Eu sentei. E senti. E comprimi bem o esfíncter. Eu precisava relaxar, ele disse, que era da brincadeira. Ele começou um movimento ritmado me empurrando para cima e para baixo. Entre uma respiração quente e outra no meu pescoço ele murmurava “iupiiiii” reforçando que aquilo era uma brincadeira. Eu fechei os olhos e tentei me imaginar sobre um dos cavalos marrons de um carrossel subindo e descendo, no ritmo do meu primo. Não estava achando muita graça, na real, mas devia ser brincadeira de gente grande e tudo bem. Ele soltou uma respiração mais forte e intensa na minha nuca e parou. Enquanto ele me enxugava ele pediu para que aquele fosse nosso segredo, porque não era todo mundo que podia brincar de carrossel e eu tinha sido escolhido. E eu acreditei, por um bom tempo, na honra daquela escolha. Até crescer e entender que eu apenas fui escolhido, porque eu era um tipo de menino que rodopiava no meio da sala.
Lembro exatamente do dia que simplesmente acordei e disse pra mim, puxa, você é gay e gosta de homens, vai em frente. Foi uma afirmação autêntica e espontânea. Sem dramas. Eu tinha 14 anos. Em casa nós já tínhamos um computador (é bom para a educação, dizia meu pai), a internet discada estava em começo de carreira e eu rondava chats que tinham suas salas reservadas para gays. Eu tinha o desejo de entrar nelas, mas faltava a coragem. Ou a decisão. É como parar na porta de uma sauna gay pela primeira vez. Eu acredito que todos deveriam passar pela experiência de ir numa sauna gay. É algo libertinador e que rende muitas histórias, mas é um privilégio dos gays. Desculpas. Mas enfim, no dia que decidi minha homossexualidade eu entrei no chat Gays 1 do provedor de acesso. Houve todo um trabalho de entender as gírias e as linguagens da internet, mas em uma semana eu já era fluente e conversava com alguns caras. Todos anônimos. As redes sociais ainda estavam anos na frente e não tínhamos fotos de perfil nem nomes próprios e uma foto abria de forma lenta e desmoronada. Certa noite comecei a conversar com Eugênio. Disse que tinha 40 anos, era médico, culto e sedutor. Falava de escritores que eu não conhecia e de viagens que eu sequer pensava em fazer. Eu disse que que gostava de escrever e das crônicas na última página da Veja São Paulo. Achei que isso soaria culto. Durante semanas marcamos horários e nos encontramos no mesmo chat para conversar. Até que concordamos de nos encontrar pessoalmente. Inventei para os meus pais que depois da aula ia fazer um trabalho na casa de uma amiga e fui encontrá-lo na Blockbuster (um empreendimento hoje inimaginável) que ficava perto do colégio. Peguei alguns filmes aleatórios das prateleiras e fiquei esperando, fingindo que estava interessado nos lançamentos. Eu estava nervoso. A loja estava vazia naquela hora e percebi quando ele entrou, mesmo não tendo certeza que era ele. Ele se aproximou, perguntou se eu era eu, percebeu que eu estava um pouco tenso e fez uma piada para quebrar o gelo. Lembro que achei ele velho. E ele disse que não me imaginava japonês. Ele me levou para almoçar numa churrascaria e me contou sobre como era muito comum entre os gregos clássicos um homem mais velho instruir os mais novos sobre as coisas da vida, arte, filosofia e de lá fomos para o seu apartamento. No caminho eu me sentia muito curioso com tudo, muito decido, afinal era a minha primeira vez na companhia de um homem. E um homem que me liderava, com propriedade. Ele me mostrou o apartamento, contou do filho que estava na escola e no sofá ele me beijou. Meu primeiro beijo. Enquanto ele me beijava eu pensava no porquê das pessoas falarem tanto sobre isso, pois eu não estava achando nada demais. E a barba dele era áspera e espinhuda. Ele pegou minha mão e me conduziu para o quarto. Eu disse que não queria nada mais que aquilo, mas ele me convenceu, enquanto beijava meu pescoço. E tive a minha primeira vez. Deitado na cama, enquanto ele tomava banho, eu me senti realizado, como adolescente e como gay. Ele me levou para jantar em um restaurante muito chique e depois, a meu pedido, me deixou a um quarteirão de casa. No meu quarto percebi que em mim ficou o cheiro dele, de homem, pensei. Por alguns anos levei essa história como uma conquista, uma história interessante sobre ter perdido a virgindade com um homem experiente. Mas alguns anos depois, quando eu já estava com meu primeiro namorado, passou no Jornal Nacional o escândalo de um médico, referência na hebiatria, que dopava seus pacientes com Dormonid e os abusa em pleno consultório. E filmava as sessões. Era o meu Eugênio. Eugênio Chipkevitch. Eu chorei. Meu namorado ficou bravo, perguntando se eu estava chorando, porque ainda sentia algo por ele. Mas eu chorava de raiva, porque eu poderia estar em uma daquelas fitas e me sentia um otário por ter consentido com tudo, ignorante do que caracterizava um pedófilo. E ele sequer precisou me dopar. Mas eu já tinha passado da adolescência e resolvi apenas me apropriar mentalmente da história. De meu Eugênio ele passou para meu pedófilo.
Lembro do dia que conheci o Leo, meu primeiro namorado, na Tunnel, balada que existe até hoje na Bela Vista e que continua sendo das bichas novinhas. Eu era uma bicha novinha, em 2000, com 18 anos, descobrindo lugares onde homens podiam se cumprimentar com um beijo no rosto, sem medo de levar coió. Coió, no dialeto gay antigo, são as agressões homofóbicas, verbais e físicas, sempre gratuitas, que levamos durante a vida por conta da nossa pura existência. Semana passada mesmo, enquanto eu esperava para atravessar, gritaram maricona para mim de um ônibus. Mostrei o dedo do meio para a traseira do ônibus e fiquei indignado por já ser velho o suficiente para ser chamado de maricona. Leo era mais velho, pernambucano e não levava desaforos pra casa. Se levava coió, gritava de volta. Aprendi isso com ele. E também palavras como aquendar (aquendei aquele boy ontem), edi (dei até o edi fazer bico), neca (o boy tem uma neca gigante), elza (ela deu a elza na minha peruca) e outras que, ele contou, aprendeu quando morou com amigas travas (travestis) no Recife. Ele também me ensinou a transar sem camisinha. Ele disse que não conseguia e eu concordei, sem questionamentos. Eu era novinho, inclusive emocionalmente. Devoto à ele. Ficamos quatro anos juntos. No último ano ele adoeceu sequencialmente, passando de um hospital a outro. E eu creio que você já sabe o que vou contar. Mas eu posso ter escrito isso, para você crer que eu vou falar sobre aids e depois quebrar as suas expectativas só para lhe mostrar como é comum e equivocada a associação de gays com a aids, mas não. No sétimo hospital só naquele ano, depois de muitas crises epilépticas, a enfermeira que o recebeu me perguntou, sem rodeios, se eu já sabia o que ele tinha, porque era muito visível. Lembro muito bem da palavra visível e de como não era para mim. Ele estava com neurotoxoplasmose, doença oportunista decorrente de um quadro avançado de aids. Foi direto para a UTI, onde eu fui repreendido pelas enfermeiras enquanto o beijava e que voltaram a me perguntar se eu sabia o que ele tinha. No terceiro dia de internação a médica plantonista, muito sensível, percebeu que eu era seu namorado e pediu o meu exame. Quando o resultado saiu, ela me conduziu para uma parte reservada e quieta do hospital, onde sentamos num banco e ela me deu o resultado positivo de uma forma calma e didática. Lembro que marejei os olhos. Ela me abraçou e disse que tudo ficaria bem. Eu chorei no ombro dela. Essa cena eu guardo comigo desde então. Leo teve alta um mês depois. Eu o visitei todos os dias. Em casa ele me acusou de ter passado o vírus para ele. A mãe dele me confidenciou que ele sabia de quem tinha pego. E nos separamos. Lembro que arremessei muitos objetos nele quando o gritei para fora de casa. Sou soropositivo a quase vinte anos.
Alguns anos depois eu lembrei destes episódios todos enquanto fazia três cortes no pulso esquerdo, dois no direito e olhava o sangue brotar dos braços dentro de dois baldes de plástico. Eu continuei e as marcas ficaram. Assim como as marcas das histórias que lhe contei. Sei que elas não são só minhas e não são as piores. São histórias comuns. Histórias que são monstros. Monstros que ficam dentro do armário, sutis, à espreita da criança desavisada que rodopia na meio da sala.