Pague 1, leve 4!

Meu coração está amargurado por cometer esse delito. Reconheço meus erros. Mestre, me arrependo. Prometo nunca mais fazer algo contrário ao que me pedes. Sim, eu sei que não devia ter beijado aquele rapaz. Ele é tua imagem e semelhança. Realmente, foi um pretexto para avançarmos mais. Sei que desde a outra vez prometi e não cumpri. Pareço uma prostituta, te vendendo por trinta moedas de prata. Vai ser diferente agora. Foi mal te entregar com um beijo. De seguidor para ser traidor. Lastimável. Minha cobiça, minha impureza… não vou ficar procurando justificativas, ok?, para aliviar minha consciência. Eu queria muito transar, tava caçando. Não tive pudor, nem respeito por tua presença onisciente. Bato no peito, é meu pecado que te coloca nessa cruz. Vim com toda comitiva armada para te prender. A minha luxúria só faz te ferir mais. Eu sou o pior de todos porque conheço teus mandamentos. Perdão. Por favor, a tua ira não caia sobre mim. Amém.

Tem um pensamento de Levinas que me instiga: “Utilizar um signo permite tornar as coisas oferecíveis”. É a minha penitência. Se não posso deixar de pecar, amar também não me é impossível.

Se engana quem pensa esse início de texto ser apelo dramático. É obediência ao mandato presidencial: somos um estado cristão, não laico. Não tenho amigo imaginário, nem quando criança fui agraciado por essa fantasia. Quis me confessar com a cadela lá de casa. Paquita, o nome dela. Tinha raiva porque ela só me olhava e não dizia nada. Talvez se Damares tivesse encontrado um bicho na goiaba, ela não seria ministra mas escritora de livro de anedotas. Ou possivelmente teria mais competência intelectual para tal cargo. A referência não está errada. Não se pode atrelar a imagem da ministra com uma mulher que fez o Homem cair na desgraça. Ou estou trocando as estórias e seria a Elsa que mordeu a maçã?

Desobediência é um bom prato para os nordestinos quando é preciso encontrar a punição para traidores. Em praça pública se queima o Judas anualmente. Quantas vezes celebrei esse ato e não percebi que perdia o irmão. Mesmo com espelhos em casa, não me enxergava.Gosto de fechar os olhos para meditar. É um exercício que aguça o sentido da audição, dá mais relevo e concretude as sonoridades. O silêncio nunca deixou de ser fúnebre. Às vezes é quebrado por minha própria voz. Ou pela curiosidade das pessoas perguntando quando eu comecei a ser gay. Eu falo em voz alta para mim mesmo esse texto ou qualquer outro desabafo. Sozinho em casa, me escuto.

Interrompo meu raciocínio indo no olho mágico. Tive a sensação de que alguém ia chegar. Retomando os interrogatórios dos tribunais da calçada… Começo a perceber que eu sou gay quando eu não sou bem-vindo nos grupos de homens, eles só se dirigem a mim por educação ou obrigação. É como se um corpo estranho fosse detectado pelo sistema imunológico. Você não costuma falar sozinho? E eu não me sinto só porque escuto essa voz. A voz é minha mas dá a impressão de outra pessoa falando comigo, porque é matéria, ondas propagadoras.

Atentos aos alertas do ‘gaydar’: você precisa imitar uma voz grossa, assumir um comportamento bruto? (até temos a famosa festa ‘Brutus’), expressar o gosto que não é o seu (futebol, carros e afins)? Você não acha que escrever é como falar em voz alta para si mesmo?Quando volto da porta para mesa, passa um vulto do outro lado do quarto enquanto estava de costas, num disparo de mili-segundos. Sem fugir das demandas dos curiosos questionadores: você se descobre gay quando se é piada sobre afeto nutrido a outro homem, ou o (tre)jeito feminino, ou o esforço hercúleo para não ser chamado de competente, não ser aprovado na seleção de emprego, não assumir liderança num contexto plural ou mesmo conseguir ajuda psíquica e/ou financeira. Essa estória de ver almas é meio paranormal. Ou seja, os escolhidos detentores de atributos masculinos, segundo critérios imputado por ‘não sei quem’, são os chefes da pátria. Esse homem arquétipico (da fábula pseudo cristã) ganha melhor, trabalha menos, camarada, todos fazem questão de trocar uma idéia legal com o parça.

Ainda apreensivo de que alguém chegue aqui em casa. Geralmente quando o visitante sobe as escadas eu já sei reconhecer que vem para cá. O som dos passos é a iminência da quebra da solidão. Vou ter compainha? Apreensivo, volto e olho para fora. O corredor continua vazio.

Repescando idéias lá do início, ainda bem que o desgoverno não tem empatia com o nordeste, porque a queima de Judas iria se tornar decreto federal. No oculto, Joana Dark também queima no fogo que nunca cessa e esse corpo não se consome. Sou trançado com essa personagem na medida que sobrevivo nessa selva de concreto com o rótulo de gay, negro, nordestino, periférico, imigrante, pobre, desempregado e católico. Sim, apesar do passado imperialista, o novo paradigma pentecostal relegou os católicos a segunda (ou terceira) ordem de participação. As seitas religiosas com inspiração no cristianismo vão espalhando tentáculos de desgovernabilidade. Pulando esse viagem até Roma, como ainda pessoas pensam que Joana use dos artifícios do vitimalismo?

Será que o Bolsonaro não é a encarnação dos anjos enviados a Sodoma e Gomorra? Então, quais dos quatro será o Messias? De repente é um prêmio: se paga um e leva quatro. O enviado de Deus vem para salvar os justos desta terra com dias contados para destruição. Duro é não estar tranquilo na sua própria cama (quando se tem uma). Faço memória de uma alucinação de febre na minha infância. Um bicho com o aspecto de uma meia vestida por uma mão, imitando uma boca, me procurava para abocanhar debaixo do cobertor. A descrição é simples, mas a experiência é aterrorizante. O desenho está marcado na consciência. Hoje acordei com um sonho (ou pesadelo) de uma mão tocando meu pé. Dei um salto (acompanhado de grito) e acordei.

O processo de escrever esse texto foi me despertando a necessidade de dialogar com outras linguagens. Tenho meus embates com a palavra escrita. Resolvi retomar uma aquarela que estava engavetada.Tudo começou com a proposta de reproduzir o cenário do mar aberto. Nesse período morava em Salvador-BA, e por residir numa cidade litorânea, era frequentador assíduo de praia. O filme Julieta de Almodóvar foi lançado nessa mesma época. O filme reverberou de um forma em mim que imprimiu um colorido diferente nas minhas cenas matinais. Comecei a perceber e admirar as nuances do colorido da água do mar. Me espantei um pouco depois com a existência do amarelo, porque minha faixa de cores só ia do azul para o verde. Anos depois, em São Paulo tive oportunidade de aprender princípios básicos da técnica de aquarela. Uma das primeiras inspirações foi reproduzir essa paisagem de forma real. Uma ocupação naturalista de imitar a natureza. No fundo sentia/sinto saudades da minha família, do mar, do cheiro do salitre, da alga, do balanço das ondas, do sol, da brisa…

Como iniciante numa técnica complexa, o resultado não foi satisfatório. O quadro frustrado ficou guardado. Mas na ânsia por concluí-lo, foram surgindo formas desconhecidas. Por outras andanças de aprendizados artístico, fui estudar auto retratos. E vi que combinavam essas duas figuras.Esse é o ponto importante para esse texto. Com esse processo de escrita em andamento, senti fervilhar em mim esse desejo de captar meu retrato nesse espaço jogado perdido. Foi objetiva a escolha da paleta de cores. Priorizei o carmim, marrom vandyke e o preto. Cada pincelada vou migrando do ranço de preconceito para a aceitação de mim mesmo. A convenção do ideal de beleza colonial que internalizou-se (branco, loiro, lábios finos, cabelos lisos e grande estatura) vai rachando em mil pedaços. Contemplo o meu rosto. Tento aproximá-lo, no pouco domínio técnico que tenho, do que sou. De barba, apesar do trabalho sempre exigir o rosto liso.

Se cada celular fosse substituído por um caderno e uma caneta? Ou uma tela, pincel e godê? Um tempo atrás já foi assim…Utópico, saudosista ou vintage?

Esses traços marcantes da negritude me oferecem o privilégio de ser seguido pelos seguranças nos supermercados dos Jardins. Esse rosto é encarado/vigiado pela polícia. Esse rosto que é a carne mais barata do mercado.

Leonardo Victor

Email: leocomdc@hotmail.com

https://pgembranco.wordpress.com/

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