
Uma terapeuta mística me disse uma vez, que o míope é aquele que não quer ver. Como se ter problema de visão fosse uma escolha. No meu caso, acredito que foi. Aos oito anos desejei loucamente ter algum defeito nos olhos, para poder, como a minha prima, usar óculos de grau, redondos, coloridos e maravilhosos. Para que quando o vento batesse, eles dançassem junto aos meus cabelos loiros e lisos – que na verdade, eram dela -, os meus sempre foram cacheados e rebeldes. E nessa ânsia de ser alguém que não sou, a obscura lei da atração me puniu, virei míope. Infelizmente, os meus óculos não eram tão bonitos e meu cabelo não era tão liso. Na verdade, isso virou um fardo que carrego há 19 anos. Com -7,25 graus no olho direito e -5,25 no olho esquerdo, aos 14 anos descobri que não precisava mais ser a fundo de garrafa e passei a usar lentes de contatos. O resultado foi a sensação de liberdade de não ter a visão limitada e a estética condenada por uma armadura de fibra de carbono. Quanto ao cabelo – um pouco menos importante nesse ensaio -, comecei a usar chapinha e fazer escova progressiva.
Passaram-se os anos, a miopia desacelerou. Os graus que antes aumentavam exponencialmente, começaram a retardar. O que isso significa? Me olho no espelho e percebo que não faço mais escova progressiva – apesar dos truques que dou no cabelo -, a chapinha, não tão frequente, ainda, gosta de deslizar entre os meus fios, principalmente no inverno. E nessa fase da vida adulta, para a ironia do destino, decidi ser fotógrafa. Uma fotógrafa míope. Nesse caminho, descobri que houve na história da fotografia, um fotógrafo cego. Fiquei surpresa pensando como ele fotografava se não conseguia ver. Seu nome é Evgen Bavcar, um esloveno que perdeu a visão aos 12 anos, após dois acidentes consecutivos: uma queda que deixou cego do olho esquerdo e, meses depois, uma explosão de mina de guerra que feriu seu olho direito. Depois que perdeu a visão, ele começou a fotografar. E quando perguntado como fazia para fotografar ele respondeu que as imagens eram, antes tudo, produto da sua imaginação, a técnica e as pessoas estavam ali só para auxiliá-lo.
Nem sempre é fácil estar em contato com a própria subjetividade como Evgan Bavcar, ainda mais, em um contexto social em que ver nos prejudica, à medida que passamos grande parte do tempo, com os olhos fixados nos celulares, acompanhando a vida virtual dos outros. Nesse hábito de observar a existência alheia, pelas telas, além de prejudicar a retina, pela constante exposição às luzes azuis, machuca a autoestima. Acompanhar esse feed virtual desses deuses digitas que são referências de sucesso existencial, também causa um tipo estresse contemporâneo, ocasionado pela constante cobrança de produtividade, que não parece ter autenticidade nenhuma. É preciso ser alguém, é preciso fazer algo. Mas não qualquer coisa. O ideal é ter foco, força e fé para encarar a ideal jornada de acordar às 5h da manhã com a determinação de fazer crossfit, mas antes, tomar aquele suco verde sorrindo. Depois do treino, #tápago, comer uma tapioca ou crepioca, se preferir, com um delicioso shake de Whey Protein, de preferência sem gosto, porque os de chocolate e baunilha levam corante e isso faz mal. E ainda, encontrar espaço na agenda do dia para o yoga, a meditação, o sexo selvagem e a leitura. Sim, ler é importante, de preferência algum livro de autoajuda, para você conseguir influenciar mais pessoas, fazer mais amigos e ser um tubarão nos negócios.
Com nossa vista curta e cansada reproduzimos modelos de humanos que parecem ter pouco a ver com a gente. Fico pensando em como Walter Benjamin (filósofo alemão) escreveu sobre isso na sua teoria sobre era da reprodutibidade técnica das obras de arte e percebo que como o que ele mesmo descreveu, essa reprodução, vai além da arte e começa a fazer parte do nosso comportamento. Ou, tudo isso, seja um devaneio de quem, com muito esforço, quer olhar para si e para o mundo com mais nitidez.