TEORIA
Ao abordar o tópico Exatidão, Calvino diz que sempre foi o norte de sua escrita:
“1. Um projeto de obra bem definido e calculado;
2. A evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis;
3. Uma linguagem que seja a mais precisa possível como léxico e em sua capacidade de traduzir as nuances do pensamento e da imaginação.”
Esses também podem ser o norte dos escritores de ficções brevíssimas.
O miniconto, o microconto e o nanoconto
Assim como qualquer conto, o conto brevíssimo condensa: personagem, espaço e tempo. Tudo dito em uma linguagem sumamente pessoal, formatado em uma concepção rígida, e estruturado sobre uma imagem forte.
Como neste famoso poema de Manuel Bandeira:
Poema tirado de uma noticia de jornal
João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
(curiosidade: Bandeira desentranhou seu poema desta notícia saída na revista Beira-Mar, na edição 074 de dezembro de 1925, sob o título “Terá sido suicídio?” – http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=067822&pasta=ano%20192&pesq=)
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Como por exemplo esses cinco estranhos microcontos de Kafka (estranho em Kafka é pleonasmo):
Olhar distraído para fora
O que vamos fazer nesses dias de primavera que agora chegam rápido? Hoje cedo o céu estava cinzento, mas indo-se agora à janela fica-se surpreso e se apóia a maçã do rosto no trinco.
Lá embaixo vê-se a luz do sol certamente já declinante no rosto infantil da jovem que caminha e olha em volta e ao mesmo tempo se vê sobre ele a sombra do homem que atrás dela anda mais depressa.
Então o homem já passou e o rosto da menina está completamente iluminado.
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As árvores
Pois somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente eles jazem soltos na superfície e com um pequeno empurrão deveria ser possível afastá-los do caminho. Não, não é possível, pois estão firmemente ligados ao solo. Mas veja, até isso é aparente.
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Desejo de se tornar índio
Se realmente se fosse um índio, desde logo alerta e, em cima do cavalo na corrida, enviesado no ar, se estremecesse sempre por um átimo sobre o chão trepidante, até que se largou a espora, pois não havia espora, até que se jogou fora a rédea, pois não havia rédea, e diante de si mal se viu o campo como pradaria ceifada rente, já sem pescoço de cavalo nem cabeça de cavalo.
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A próxima aldeia
Meu avô costumava dizer: “A vida é espantosamente curta. Para mim ela agora se contrai tanto na lembrança que eu por exemplo quase não compreendo como um jovem pode resolver ir a cavalo à próxima aldeia sem temer que — totalmente descontados os incidentes desditosos — até o tempo de uma vida comum que transcorre feliz não seja nem de longe suficiente para uma cavalgada como essa”.
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Voo
Uma gaiola saiu em busca de um pássaro.
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Pequena fábula
“‘Ah’, disse o rato, ‘o mundo torna-se cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro’. – ‘Você só precisa mudar de direção’, disse o gato e devorou-o”.
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O microconto pode ir de uma página a duas palavras. O clássico é aquele atribuído a Hemingway: “Vende-se par de sapatos de bebê. Sem uso.” (Aliás note como a importância da pontuação fica mais dramática num microconto, se trocarmos ponto por exclamação: “Vende-se!! Par de sapatos de bebê!!! Sem uso!!!!”.)
O melhor microconto fantástico de todos os tempos ainda é o de Augusto Monterroso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.
O conto curtíssimo, o miniconto e o microconto consideram todos os aspectos do conto: personagem, espaço e tempo. Todo pequeno conto tem aquela tensão primordial. É comum que o conto curto seja sentencioso, isto é, guarde um ensinamento exemplar. Não há espaço a perder no conto curtíssimo. Mas também não se admite ser hermético ou obscuro em um microconto. Ser preciso, exato e rápido quer dizer ser claro e acessível. Mas o conto curto não sei deixa abrir facilmente: não é uma piadinha – tem uma construção rigorosamente literária. É um sutil equilíbrio entre o misterioso e a revelação.
A quem quiser se aventurar pelo microconto: é importante a noção de projeto. Um microconto só não faz verão. É preciso juntar vários para que o leitor perceba que existe uma temática, um assunto, um cenário, uma dimensão psicológica, um personagem, uma atmosfera mental, um sentimento, uma perspectiva de mundo por trás de todos. O microconto do Hemingway aí em cima só é importante porque ele casa com a secura da obra do Papa. O do Monterroso só vingou porque tem a ver com o realismo fantástico de sua obra. Assim como os hai-kais de Dalton Trevisan, que são resultado de ums longo depuração de sua obra. Todos os microcontos de Kafka ligam-se à sua obsessão pelo paradoxo, pelo oxímoro, pelo contraste violento entre ideias contrárias, tudo dito de modo melancólico e frio. Fazer um ou dois microcontos não torna ninguém um microcontista. É importante ser ao mesmo tempo exato, preciso e inteiro em cada texto, mas ligá-lo a outros como em uma rede.
CLOSE READING
Pequena antologia do mini, do micro e do nanoconto
Microconto estruturado sobre uma cena: Rubem Fonseca, “Os músicos”, in Lúcia McCartney
OS MÚSICOS
Faz calor. Os grandes espelhos da parede vieram da Europa no fundo do porão; cristal puro. “Tua avó fez risinhos e boquinhas, namorou dentro desse espelho”. Respondo: “minha avó nunca viu esse espelho, ela veio noutro porão”. Nesse instante chegam os músicos, três: piano, violino, bateria; o mais moço, o pianista tem quarenta anos, mas é também o mais triste, um rosto de quem vai perder as últimas esperanças, ainda tem um restinho mas sabe que vai perdê-las num dia de calor tocando os Contos dos Bosques de Viena, enquanto lá embaixo as pessoas comem bebem suam sem ao menos por um instante levantar os olhos para o balcão onde ele trabalha com os outros dois: Stein, no violino – cinquenta e seis anos, meio século atrás: espancado com uma vara fina, trancado no banheiro, privado de comida “nem que eu morra você vai ser um grande concertista” e quando Sara, sua mãe, morreu, ele tocou Strauss no restaurante com o coração cheio de alegria – Elpídio na bateria, cinquenta anos, mulato, coloca um lenço no pescoço para proteger o colarinho, o gerente não gosta, mas ele não pode mudar de camisa todos os dias, tem oito filhos, se fosse rico – “fazia filho na mulher dos outros, mas sou pobre e faço na minha mesmo” – e todos começam, não exatamente ao mesmo tempo, a tocar a valsa da Viúva Alegre. Na mesa ao lado está o sujeito que é casado com a Miss Brasil. Todas as mesas estão ocupadas. Os garçons passam apressados carregando pratos e travessas. No ar, um grande burburinho.
MARÇAL AQUINO


Nanocontos em que a narrativa se reduz a um esqueleto, flertando com o poema-piada à Oswald de Andrade: Manoel Carlos Karam, in Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca








Um livro todo construído em minicontos e microcontos extraídos de cenas cariocas: Natércia Campos, Copacabana Dreams




Microcontos com uma obsessão pela morte: Max Aub, Crimes Exemplares





Microcontos e nanocontos do pai do mais famoso textículo, Augusto Monterroso (A Ovelha Negra e Outras Fábulas)



Microcontos estruturados sobre um conceito: aulas elementares sobre coisas óbvias, por Julio Cortázar (Histórias de Cronópios e Famas)


Microcontos extraídos de contos: a dissecação da própria escrita ao limite do essencial, por Dalton Trevisan (Ah, É?)




Microcontos fortemente influenciados pela negatividade kafkiana, descarnados de personagens, se estruturam sobre um fiapo de narrativa: Lydia Davis, Tipos de Perturbação
A MÃE
A menina escreveu uma história. “Mas quão melhor seria se você escrevesse um romance”, disse a mãe. A menina construiu uma casa de bonecas. “Mas quão melhor seria se fosse uma casa de verdade”, disse a mãe. A menina fez um travesseirinho para o pai. “Mas quão mais útil seria uma colcha”, disse a mãe. A menina cavou um pequeno buraco no jardim. “Mas quão melhor seria se você cavasse um buraco grande”, disse a mãe.
A menina cavou um buraco grande e entrou nele para dormir. “Mas quão melhor seria se você dormisse para sempre”, disse a mãe.
O CUNHADO
Ele era tão quieto, tão pequeno e tão magro que era quase como se não existisse. O cunhado. Cunhado de quem, não se sabia. Nem de onde havia vindo ou quando iria embora.
Era impossível saber onde ele dormia, embora eles tentassem achar uma depressão no sofá ou algum sinal de bagunça entre as toalhas. Ele não deixava nenhum cheiro por onde passava.
Ele não sangrava, ele não chorava, ele não suava. Ele era seco. Mesmo sua urina disparava do seu pênis para dentro da privada quase antes de ter saído de dentro dele, como uma bala de uma arma. Eles praticamente não o viam: se eles entravam num cômodo, ele desaparecia como uma sombra, deslizando pelo batente, escorregando por sobre a soleira. Um suspiro foi o único som que jamais o ouviram emitir, e ainda assim eles não conseguiram ter certeza se não havia sido uma ligeira brisa raspando nas pedrinhas lá de fora.
Ele não podia pagar nada a eles. Ele deixava dinheiro toda semana, mas assim que eles entravam na sala, lerdos e barulhentos como eram, o dinheiro se transformava numa bruma verde e prateada na bandeja da avó deles e, quando eles estendiam a mão, já não estava lá.
Mas ele não dava praticamente nenhuma despesa. Eles não conseguiam nem perceber se ele comia, porque o que ele tomava para si era tão pouco que nada representava para eles, que eram grandes comilões. Ele saía dum canto qualquer de noite e vagava pela cozinha, com uma navalha afiada na mão branca e delicada, raspando lâminas de carne, de nozes, de pão, até que seu prato, fino como papel, lhe parecesse pesado. Ele enchia sua xícara de leite, mas sua xícara era tão diminuta que nela cabiam no máximo um gole ou dois.
Ele comia sem fazer ruído ou sujeira; nunca nada caía de sua boca. Ele limpava os lábios sem deixar nem uma marca onde eles haviam tocado o guardanapo. Seu prato era imaculado, não ficava uma migalha no seu jogo americano, não sobrava uma gota de leite na sua xícara.
Ele poderia ter ficado ali por anos, se não tivesse acontecido de um inverno ser duro demais para ele. Ele não suportou o frio e começou a se dissipar. Por muito tempo eles não tiveram certeza de que ele continuava na casa. Não havia mesmo meio de saber. Mas no começo da primavera eles limparam o quarto de hóspedes onde, muito provavelmente, ele tinha dormido e onde, a essa altura, ele tinha se tornado algo assim como um vapor. Eles o sacudiram do colchão, o varreram do chão, o esfregaram da vidraça e nunca souberam o que haviam feito.



Microcontos saídos do encontro dos koan budistas com parábolas judaicas: Alex Epstein, Para a Próxima Mágica Vou Precisar de Asas




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PROPOSTA
Você irá fazer sete microcontos – mas todos relacionados a um só personagem.
Basta responder às perguntas abaixo a respeito de um único personagem.
Todos os textos juntos devem caber em no máximo 4 mil toques.
Pense em pequenas narrativas. Pense em cenas. Pense na essência de cada história. Pense também que você vai relacionar cada texto a outros seis. Portanto, pense em rede, tornando cada texto autônomo, mas, ao mesmo tempo, conectado ao todo do texto.
Você pode estruturar todos os microcontos em uma narrativa em ordem linear ou em ordem não-linear.
Pense que, como você vai se ater ao essencial, elimine adjetivos, advérbios ou até mesmo verbos.
As perguntas:
– Qual a sua melhor lembrança da praia?
– O que te traz a calma perfeita?
– O que é que você esconde aí?
– Já dormiu em um automóvel?
– Tem algum método favorito?
– Já matou alguém?
– Dói?
(As perguntas são títulos de contos e microcontos do livro Questionário, de Cadão Volpato. Não é preciso usar os títulos no seu conto.)
BIBLIOGRAFIA
111 Ais, de Dalton Trevisan [L&PM]
Comendo bolacha maria no dia de São Nunca, de Manoel Carlos Karam [Ciência do Acidente]
Crimes exemplares, de Max Aub [Amauta]
Essencial, Franz Kafka [Cia/Penguin]
Faroestes, de Marçal Aquino [Ciência do Acidente]
Flores, de Mario Bellatin [Cosac Naify]
Histórias de cronópios e de famas, de Júlio Cortázar [Civ. Brasileira]
O imitador de vozes, de Thomas Bernhard [Cia das Letras]
Lúcia McCartney, de Rubem Fonseca [Agir]
Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, org. Marcelino Freire [Ateliê]
A ovelha negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso [Cosac]
Para a próxima mágica vou precisar de asas, de Alex Epstein [Nau]
Questionário, de Cadão Volpato [Iluminuras]
Copacabana dreams, de Natércia Pontes [Cosac]