Quando meus pais saíam para trabalhar, a empregada me pegava pela mão e me fazia benzer pelo padre. Já não aguentava mais aquela criança largada, sem religião, andando pelada pela casa, pintando as paredes. Devia estar endiabrada. Também, com aqueles pais, o que se poderia esperar? A mãe que comia comidas esquisitas, só vegetais, folhas, algas – e não raspava as pernas e – afemaria – trabalhava. O pai, o dia inteiro fora, quando chegava, já nem se sabia, pois a moça já tinha ido pelo dia. Que influência um homem desse poderia ter naquela bagunça? Fora isso, um mico, um peixe e uma cadela irritadiça e mal educada completavam o conjunto.
Final de semana, eu me mandava para a casa da minha empregada, Maria. Ou ia para a casa da minha segunda família; o lar de Nêga e sua mulher, Risomar. Na verdade, a casa era de Minha Mãe Nêga, de Minha Tia Riso e de meus outros quatro irmãos, filhos do primeiro casamento de mainha Nega: Nilton, que chamávamos de Tiziu, pois era o mais preto. Daí Ricardo, carinhosamente apelidado por minha mãe de Marginal. Não sei por quê, mas imagino. Depois Aninha, a mais encrenqueira e Emily, apenas um ano mais velha do que eu. Por último, e a única branca entre os humanos da casa, eu. Mais alva que eu era Peninha, a cachorra barulhenta.
Moravam todos em um lugar do bairro de Brotas, numa viela de casas de alvenaria sem grandes acabamentos. Algumas residências tinham azulejos na fachada e água quente no chuveiro, mas esse não era o caso: o banho era tomado abrindo-se uma rosca que liberava a água direto da caixa d’água. Não havia shampoo, só sabonete. Gessy verde, eu acho.
Comíamos comidas muito simples, como o adorado feijão de leite servido com arroz branco. Ás vezes havia grana para comprarmos uma Banana Real, um delicioso pastel doce recheado com banana da terra. Nós, as crianças, dormíamos todos juntos em um dos únicos dois cômodos da casa. Na sala, Emily e Aninha se sentavam para alisar os cabelos duros com um pente de ferro. E o ferro de passar roupa, aliás, também não era elétrico – elas os esquentavam na boca do fogão para poder usá-los para seus fins. Muitas vezes, eu estava só com meus irmãos, enquanto mainha e tia Riso trabalhavam. Brincávamos na rua com os vizinhos Kelmany, Bete e mais tantos outros: chutávamos pedra, catávamos formigas, jogávamos bola na descida ou amarelinha no chão de cimento rachado da viela. Era uma vida rica, de afeto e de relações. Eu era a diferente, mas não era excluída.
Nêga tinha sido faxineira da casa do meu pai quando ele resolveu aceitar a proposta de emprego na Telebahia, em Salvador. Fazia parte do time que estava instalando o sistema de discagem à distância, o tal DDD. Minha mãe foi depois comigo, a filha única, a tiracolo, deixando para trás as respectivas famílias em São Paulo, a comunidade judaica e, creio, algumas outras coisas.
Meus pais se conheceram no Brasil quando jovens. Eles tinham chegado ao país com seus 10, 12 anos, cada qual vindo de uma região da Polônia, ou da Rússia, ou da Bielorússia ou da Ucrânia- dependendo da data em que você olha – aquele novelo de cidades e povoados que passou de mão em mão durante a 2a Guerra mundial. Ele, fugindo dos Nazistas, dos próprios judeus, dos poloneses e de todo o resto. Havia nascido em 1940, em janeiro, em uma cidade que não sei o nome – achei por muito tempo que era Vladiwostok, mas depois lembrei que era uma base do jogo War. Era filho de meus avós, Sofie e Adam. Eles eram pequenos empreendedores comunistas, ateus e judeus. Tamanha contradição ninguém queria por perto.
Com a chegada da guerra, iniciaram um périplo de fuga que daria um roteiro de filme. Um dia, meu pai escreveu nove páginas deliciosas sobre isso. Tinha um humor que eu não esperava. Contava coisas triviais da vida, como a primeira sensação física que teve em seu pinto: quando foi mijar num tanque de guerra abandonado e levou um choque! O manuscrito que ele me mandou foi roubado com meu computador e depois ele mesmo perdeu o original. Não temos mais essa história por escrito e meu pai não fala mais sobre o assunto.
O que lembro é que ele nasceu em uma região que foi posteriormente infestada de nazis. Em plena guerra, em pleno inverno, a pequena família judaica (ainda que ateia e comunista) foi, como muitas outras, sendo empurrada para cidades e mesmo países involuntários, em busca de abrigo, comida e calor. Isso quando não eram empilhadas dentro de vagões de trem com a roupa do próprio corpo, para um destino de onde muitas vezes não havia volta. A saída de suas casas sempre era acompanhada de humilhação, desprezo e cuspe, cortesia dos soldados da SS. Os conterrâneos poloneses, cristãos devotos, mal esperavam os judeus serem marcados com a estrela amarela e despachados para saquearem suas residências e devassarem suas histórias.
Não consigo imaginar o que era a caminhada em fuga constante dos meus avós com seu pequenino bebê no frio, na falta de mãos amigas, no triplo desprezo, escorrendo de país em país até chegar no pior deles: a Sibéria. Ninguém queria parar na Sibéria. Era melhor morrer no gueto. Mas foi lá que eles chegaram sãos e salvos e onde moraram por quatro anos, até o final da Guerra.
Ali elaboraram a “descida” para a Europa. Fugindo não sei como e não sei com que financiamento, foram parar em Viena, por onde se detiveram alguns anos antes de partir para Paris para outros tantos outros. Pelo que recordo, foi ali que aconteceu a história do pinto do meu pai.
Finalmente, algum parente no Brasil foi encontrado e eles tomaram rumo aos trópicos, onde estabeleceram um pequeno negócio de moda no Bom Retiro; ela era exímia costureira e estilista, e ele alfaiate. Meu pai, já com seus 10 anos, foi estudar no colégio Caetano de Campos, que está até hoje na Praça da República. Eles fizeram sua primeira residência no gueto voluntário da comunidade judaica do Bom Retiro, mas não faziam parte dela. Eram diferentes, e eram excluídos.
Minha mãe, Larisa, nasceu em um pequeno povoado da Polônia, perto da fronteira com a Rússia. Minha avó, sem nenhum membro da família para contar história, tinha por volta de 18 anos, quando foi se abrigar na antiga escola de sua cidade. Não sei o quanto custou para que chegasse viva até ali. Sabe-se que ela se valeu de sua aguda “sevirologia” para conseguir dinheiro, escapar dos nazis, dos comunistas, do frio, da praga, da saudade e da morte. Sei que ela era a segunda mais nova dos cinco irmãos e a única sobrevivente da família. Teve que se despedir de sua mãe quando esta a expulsou do gueto, ao ficar sabendo que este seria incendiado, com todos os judeus vivos dentro.
Tinha 13 anos, falava o dialeto católico e isso a permitiu sair do gueto sem levantar suspeitas. À guisa da orientação da mãe, tomou seu irmão caçula, Artur, pelo braço e o levou junto. Como hábito na época, levava costuradas à calcinha algumas joias para vender caso precisasse. Como hábito na época, os soldados mataram Artur a tiros, quando perceberam a fuga. Eu tinha pensado em dar à meu filho Benjamin este nome, mas para minha avó era como nomeá-lo com o nome de um fantasma. Desisti desta ideia.
Esta avó foi pega e levada a campos de trabalho forçado. Tinha longas tranças e os soldados a seguravam por ali para que ela fizesse direito seu ofício de enfiar comida goela abaixo dos gansos, para que estes posteriormente fornecessem o desejado fois gras. Que elites comeriam aquilo, penso hoje? A imagem dos Nazis se refestelando com a iguaria me faz querer ser a heroína do filme Bastardos Inglórios por alguns instantes. Mas minha alma não aguenta tanta vingança.
Como ela escapou, ficou perdido na história. Ela não consegue falar mais do assunto. Ela sabe sim que quando tudo foi voltando ao normal, após a guerra, ela tentou voltar para casa. Mas esta já pertencia ao governo comunista, assim como a cidade já era parte da Rússia. Lembrou-se da desgraça de terem matado seu pai em praça pública por ser comerciante abastado, uma afronta aos princípios de Stalin.
Sem casa, abrigou-se na antiga escola, onde fez amizade com um casal de professores que a ajudaram a recobrar as forças, dando-lhe um lar em sua própria residência e, mais adiante, um marido. O filho mais velho deste casal havia chegado do front recentemente. Era um lindo soldado russo, ferido com estilhaços de granada na cabeça, chamado Wladimir. Creio que minha avó tenha gostado dos 1,94m de altura do rapaz e do clima de camaradagem que se instalara no convívio com suas irmãs e pais. Mas minha avó disse que se aproximou de meu avô por gratidão e com ele fez um filho. Minha mãe nasceu em dezembro, num dos invernos mais rigorosos jamais registrados, de uma avó Hilda já mãe solteira, separada do soldado que se tornou um alcóolatra, que deu à luz sozinha num leito de enfermaria no pequeno povoado de Lvuv, Rússia. Sua vizinha de cama, Larisa, foi quem a ajudou e nomeou minha mãe.
Minha avó então foi tocar a vida. Diz ela que foi trabalhar em uma fábrica de bebida alcóolica e que passou a desviar garrafas para vender no mercado ainda mais negro. Assim, encheu os bolsos de dinheiro e conseguiu enviar minha mãe para uma cidade próxima, para onde ela retornava todos os dias, após turnos de 16 horas diárias. Também podia pagar luxos como ter uma babá para minha mãe e aulas de violino. E, creio eu, dinheiro para subornar quem quer que fosse que pudesse denunciá-la por tais pecados capitalistas.
Mais adiante, minha avó conhece e se casa com seu segundo marido, um advogado boêmio, com quem tem minha tia, Anna. Minha mãe, então com 9 anos, perde seu posto de princesa e tudo descamba quando a família decide se mudar para um novo país: Israel.
Os árabes, o calor, o clima desértico e a falta de elegância dos assentamentos, fora o árido clima familiar, tornaram o convívio insuportável para minha mãe. Sorte que, pouco tempo depois, um parente fora descoberto no Brasil. Um tio abastado, que vivia em uma tal de cidade de São Paulo, no Brasil, lugar de onde ninguém jamais tinha ouvido sequer falar.
Coisa de poucos meses depois, Larisa desembarca de avião, sozinha, em Congonhas. Seu tio e sua esposa se encantam imediatamente com a presença erudita dela e, não tendo filhos, propõem adoção à minha avó. Quando esta carta chega às mãos dela, um furor faz com que minha avó despenque para o Brasil para “resgatar” minha mãe, que se nega à voltar para Israel.
Seis meses depois, minha avó e tia Anna a tiracolo chegam de mala e cuia para habitar temporariamente o lar do Tio Oscar e da Tia Marta. Esta, revoltada por minha avó não permitir a adoção da minha mãe, faz com que a estadia seja um inferno, tornando a vida das três mulheres uma sequência de humilhações e um eterno desespero.
Minha avó então conhece meu “avodrasto”, Max, com quem se casa e recomeça a vida. A nova família se muda para Higienópolis e passa a frequentar uma nova sinagoga, mais progressista, diziam. Minha mãe vai para o Mackenzie, onde se destaca como aluna, mesmo mal falando português. Outro destaque é o ódio entre ela e a tia Anna, coisa que permaneceu até a morte precoce da minha mãe.
Quando se conheceram, ela com 18 e ele com 25, Viktor e Larisa compartilhavam um desejo comum: saírem de suas casas e se verem livres do peso acachapante do convívio da comunidade judaica. Ambos acreditavam em valores maiores, como a liberdade de expressão, e a religião não lhes oferecia morada.
O casamento foi realizado em 1963, na mesma sinagoga onde se conheceram, pai e mãe. Ela ganhou um apartamento de um dormitório no nobre Largo de Santa Cecília, número 80, penúltimo andar. Não havia ainda o Minhocão e a proximidade com os Campos Elíseos fazia do bairro um lugar destacado. Ela tinha um gato preto, chamado Chat, um armário cheio de roupas e ele tinha um bom emprego como engenheiro de telecomunicações, uma nova e promissora profissão.
Minha avó Hilda fazia o papel que minha mãe não parecia muito talhada a fazer: o de cuidar de mim. Se eu nasci, foi por uma decisão do meu pai de não deixar minha mãe abortar de novo. Ela não era chegada em crianças como era em livros, em física, em música e em roupas bonitas.
Quando fiz dois anos, mudamos para Salvador. Não tínhamos mais comunidade judaica, nem família por perto. Éramos, novamente, os estranhos. Os estrangeiros. Três polacos numa Salvador predominantemente negra. Três judeus ateus em uma terra de candomblé, carnaval e catolicismo.
A cidade era cor e alegria e festa e música e sensualidade. Não demorou muito para que meus pais se separassem. Ele foi trabalhar na África, ela virou hippie, formou-se novamente, em arquitetura, e foi trabalhar para o governo. Ela me ensinou a ler, a ouvir Ella Fitzgerald e Sivuca, Chico e Caetano. A comer comida macrobiótica e a fazer arte. Mas não aprendi com ela sobre o afeto. Não suportava, creio eu, o peso da criação de uma filha. Talvez quisesse liberdade e eu não permitia. E, dentro da minha própria casa, passei a me sentir a estrangeira.