A recessiva

Desisto. O meu irmão me convenceu a irmos juntos a uma balada. Na verdade, não é o meu programa favorito de sábado à noite. Por uma questão de irmandade; cedi.

Chegamos à balada. A música eletrônica rolava sem interrupções. Galera animada; louca para iniciar o marcador de estatística de bebidas e pegações. Enfim, alguém que o meu irmão conhecia.  – Oi! Prazer, Graziele.    – Oi, sou o Marcel.

Outro amigo chegou. Beijos pra cá, beijos pra lá. Prazer. A música não era boa e, entro na pista. É inaceitável vir a uma balada e curti-la com a bunda no sofá. Isso mostra o caráter da pessoa.

Licença, licença. Ops! Quase né? Segura aí.

A princípio, coloco em ação os meus pés enferrujados, após alguns segundos, timidamente os meus braços entram em um balanço, ainda sem ritmo; corporalmente desenho uma coreografia primeva; um corpo empenhado em deixar o pudor e o mofo em casa. A energia passa de um membro ao outro, cada um começa a sentir o tom, o ritmo começa a ser instalado, a harmonia faz milagres, as travas estão caindo, um ensaio de liberdade, a pirotecnia é exclusiva, o movimento acompanha, os olhos fechados permite maiores sensações, resultado: quando eu tinha 15 anos, adorava dançar em pista de dança, coreografia afiada, plateia atenta, nosso grupo de dança deleitava-se com o espetáculo da glória. Não parávamos.

Sinto um toque em um dos meus ombros, abro a minha janela. Ah! É você.   – O seu irmão quer falar com você.  Deixo o meu devaneio para depois.

Leo apresentou-me a dois casais de colegas. Educadamente introduzi um papo cabeça, começamos pelos filmes blackbusters. De saída foi o Vingadores ultimato, logo X-men: Fênis Nega, em seguida Capitão Marvel, ah! O meu preferido: Homem Aranha- Longe de casa. Esse é o melhor. Todos discutindo freneticamente sobre as referências cinematográficas, como se fosse raridade encontrar um grupo com o mesmo gosto. Ou será porque as histórias são lineares, o heroi, o vilão, a presença do maniqueísmo, e finalmente o final feliz?  Sendo que, em narrativas desafiadoras, o não linear, o ilógico, as provocações, as metáforas, e em muitos casos o final infeliz são partes constantes na história. No ápice da discussão, o meu irmão fez uma observação perspicaz, comentou:  – Ué! Desses filmes que foram citados, você não assistiu nenhum, ainda reclama do absurdo dos ingressos e da quantidade de salas reservadas para estes tipos de filmes. O silêncio prevaleceu; todos olhavam incrédulos para mim, minha credibilidade foi colocada em questão; o pior de tudo; era verdade. Permaneci firme e declarei:

– Gente! O que a Disney faz com os filmes? Ninguém respondeu.  Continuei:  – A Disney mantém a mesma estrutura  das narrativas, só muda os atores, as roupas, acrescenta uma coisinha alí e outra aqui de acordo com o mercado, investe em uma enorme propaganda, vende o produto como inovador. É igual novela, se assistir uma ou duas, as outras são mais do mesmo. Houve um burburinho.  Todynho mudou de assunto e perguntou-me:

-Você é irmã do Leo, né?

-Sim. Respondei.

– Nossa? Como pode? Vocês são tão diferentes, você loira e ele moreno. São dos mesmos pais?

-O que? Não acredito que você está me fazendo essa pergunta.  Respirei fundo e prossegui. Bom, ainda bem que não somos nada parecidos. Ficaria preocupada com isto. Diga-me uma coisa. Os irmãos ou mesmo os familiares precisam ser um a cara do outro para serem considerados da família? E se não forem?

Todynho ficou sem ação, estacionou.  Em um átimo lembrei-me da minha infância. Quando saímos eu, minha mãe e os meus irmãos, a pergunta mais frequente a nós era: – A menina é adotada? Nós em um expressivo coro, respondíamos que não. Não parava por aí, perguntavam se os filhos eram do mesmo pai e da mesma mãe. Pior ainda, sugeriam que a minha tinha traído o meu pai. Sem dúvida que a aparência física, era mais fácil que a possibilidade de considerar outros fatores como: o genético, o ancestral, o cultural, e tantos outros.  Deveras o mais insultante era a forma das perguntas, a incredulidade, como se fossemos criminosos, teríamos que nos defender diante o tribunal.  Isso porque a minha mãe, uma negra, casou-se com um loiro; resultado: um filho negro, um moreno e uma loira. A pluralidade da genética imperou. Não deu a lógica, a recessiva emergiu. Pois ser recessiva em um ambiente dominante de comentários e dúvidas aviltantes, confesso: é entrar em contato com um dos lados sombrios dos ser humano, no fundo, no fundo, esse lado também é o meu.  De fato, a singularidade de cada filho se manifestou. Como explicar séculos de história, ancestralidade, e tantos outros ricos conceitos a seres que ainda estão dentro da caverna?

Leo sussurrou no meu ouvido. Direcionei-me em sua direção, o olhei orgulhosamente, um sorriso apaziguador manifestou-se no meu rosto. Receptivamente voltei-me para Todynho, quis saber mais sobre ele. Afinal de contas, esse apelido de Todynho não era à toa.  

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