Você tem medo de quê?

Na infância, aprendi a ter medo do homem do saco, do bicho papão e de lagartixa. Minha mãe tinha pavor desse bicho que anda pelas paredes e eu acabei herdando o sentimento, que nunca me abandonou. Trata-se de um caso de herpetofobia, que é o medo de répteis. Tudo bem alguém ter medo de cobra ou jacaré, que podem até matar, mas por que alguém teria medo de lagartixa?

Segundo o filósofo Baruch de Espinoza (*1632 +1677), o medo é originário de uma ideia equivocada sobre algo e somente poderíamos nos libertar dele com o conhecimento. Fui buscar informações e descobri que a lagartixa é originária da África e chegou ao Brasil há mais de 400 anos, provavelmente nos navios negreiros. Na fase adulta, atinge entre 10cm e 15 cm e vive cerca de 10 anos. Tem hábitos noturnos, gosta de calor, alimenta-se de aranhas, moscas e mosquitos, incluindo o causador da dengue, o que faz dela um bicho muito útil.  É também um bicho esperto. Quando se sente ameaçada,  consegue separar o rabo do resto do corpo para confundir o predador e sair correndo. Depois, a cauda se regenera, embora em tamanho menor. Ela também possui a habilidade de escalar muros e paredes e andar no teto, porque é dotada de pequenas lâminas cobertas por pelos microscópicos em forma de ganchos.

A lagartixa não agride, não transmite doenças, não faz qualquer mal ao ser humano. Então por que sabendo disso, eu não consigo superar meu medo? E não apenas eu. Quem der um google  vai encontrar muitos artigos e vídeos sobre isso, todos bastante visualizados e comentados por gente que padece do mesmo pavor.

Os dicionários apresentam a palavra medo como uma espécie de perturbação diante de um perigo real ou imaginário. Pode ser também um estado de alerta, esperando que algo ruim vá acontecer. Apesar de desagradável, o medo é fundamental para a sobrevivência humana. Sem ele, as pessoas se colocariam em situações perigosas, arriscando a própria vida.

O medo é sempre uma sensação física, que resulta da liberação de hormônios, como a adrenalina, que provocam a aceleração dos batimentos cardíacos. Além disso, em pânico, a pessoa pode apresentar ressecamento dos lábios, empalidecimento da pele e contrações musculares involuntárias, como tremedeiras.

Em alguns casos, a reação ao medo é exagerada e esse estado de alerta se transforma em algo patológico. É quando o medo se torna uma fobia.  Nesta condição, o indivíduo não se prepara para lutar ou fugir, mas fica paralisado, sem conseguir se relacionar com o objeto do seu medo, com repercussões desastrosas  no seu cotidiano.

Aos 16 anos, apresentei sintomas de Síndrome do Pânico, antes que esse transtorno se tornasse conhecido. Tudo começou quando experimentei haxixe e tive uma bad trip. Passei mal e achei que fosse morrer. Depois disso, tinha crises de pânico sem qualquer estímulo e em qualquer lugar. Fui levada a diferentes especialistas que, sem saber como lidar com aquilo, apenas receitavam calmantes. Minha mãe me levou até mesmo a uma mãe de santo para descartar um possível encosto. O problema só foi resolvido três anos depois, quando iniciei minha vida profissional, trabalhando como repórter estagiária em um jornal. Conclui que ocupar a cabeça com algo que agrade é um ótimo antídoto para o medo.

Ao longo da vida, tive muitos medos de situações reais: de sofrer algum tipo de violência, de ficar sem trabalho e, consequentemente, sem dinheiro, de ficar louca, de morrer. Na sua autobiografia “Confesso que vivi”, o poeta chileno Pablo Neruda afirma que o pior medo é o que antecede terremotos, como os que ele enfrentou várias vezes  em seu país. Neruda explica que o barulho da terra se rompendo e a sensação de que não vai sobrar ninguém para contar a história provocam um medo incomparável.

Acredito, sim, que desastres naturais, como tsunamis e terremotos, ou provocados pela ganância de empresários sem escrúpulos, como o rompimento de barragens com dejetos de minérios, provocam um medo infinitamente grande porque são situações que fogem ao controle. Quem tem alguma fé, reza, quem não tem, chora, embora, muitas vezes, nem dê tempo de se ter reação alguma.

Ao apontar os principais medos da humanidade, diferentes pesquisas citam o medo da morte, da escassez, de falar em público, de sangue, de insetos, de escuro, de lugares fechados, de voar, de contrair doenças, de tempestades, de dentista, além de fobia social.

Já superei vários medos, mas ainda tenho muitos. Hoje temo pela vida e segurança das pessoas que amo e me arrepio só de pensar na possibilidade de ficar dependendo de quem quer que seja. A morte não me assusta, mas ficar em uma cama dependendo de alguém até para as atividades básicas, me deixa horrorizada. Eu também tenho muito medo de gente preconceituosa e reacionária, como essas que colocaram o atual governo no poder. Tenho muito medo desse governo que se coloca como inimigo da educação e do meio ambiente, que arma a população e não quer que ninguém mais se aposente. Tenho medo de jogos sujos, como o que foi orquestrado para colocar Lula na cadeia e impedir que se tornasse, mais uma vez o presidente do Brasil. Tenho medo do desemprego que aumenta a cada dia, fazendo crescer também a fome. Ah, como era bom quando o meu maior medo era o de lagartixa.

(Sonia Nabarrete)

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