Sabe aquele dia em que você é confrontada negativamente com três elementos da natureza? Foi o que aconteceu dia destes. Apesar de ter havido a companhia de uma onça pintada, um dia de cão é o termo mais apropriado para representar “aquele” dia em que nada dá certo.
Amiga de longa data, Cecília convidou-me para assistir ao Sarau de poesias da Cooperifa, no bar do Zé Batidão, localizado na periferia de Piraporinha, a de 30 km de distância de minha residência.
Seria na terça-feira, mesmo dia de uma reunião com clientes no centro da cidade de São Paulo, e eu aproveitaria para percorrer a Rua Vinte e Cinco de Março para comprar a uma onça pintada. Bem entendido, onça pintada de pelúcia, com fisionomia realista. Levaria-a para presentear a amiga escritora que lançou livro infantojuvenil, cuja história tem como personagem o animal brasileiro, e o bichinho seria usado para decorar a exposição de seu livro. Depois me deslocaria para o sarau, encontrando-me com a amiga no bar do seu Zé.
Terminada a reunião, decidi caminhar à pé do Anhangabaú até à rua comercial. Peguei umas quebradas, desci a ladeira Porto Geral e cheguei na muvuca da Vinte e Cinco. Conhecida pelos lojistas do país por encontrar de tudo, percorri loja por loja, transitei ao longo da rua e nas adjacências, e realmente encontrava-se tudo, menos o que eu queria. Depois de três horas no vai e volta, vira à esquerda, vira à direita, sobe rua, desce rua, sobe degraus, desce degraus, com meu joanete começando a dar sinais de descontentamento, topei-me com o Armazém Santa Filomena, próximo ao Mercado Municipal.
Uma infinidade de especiarias como azeites, doces, chás, temperos, grãos, cerais, geleias, molhos, pastas me encheu os olhos e atiçou meu estômago. Tudo o que você possa imaginar de condimentos a um preço absurdamente diminuto. Dois litros de azeite, arroz integral sete grãos, macarrão integral, polvilho doce, pão sírio, azeitonas, ameixas… Não estava prevista essa compra, mas as ofertas eram irrecusáveis.
De retorno aos arredores da Vinte e Cinco, com um joanete em frangalhos, carregando o saco preto da recente aquisição e parecendo a mamãe Noel, decidi comprar apenas uma base de rodinhas que sustenta mochila. Eu e o comerciante improvisamos o saco sobre o suporte e ele colocou durex em tudo.
Já havia desistido da onça pintada, quando a vi toda insinuante. Era uma onça realista linda, imponente, brava, de aspecto até mesmo arrogante porque ciente de sua beleza. Um pouco grande, mas tudo bem. Imaginava a cara de alegria de Cecília quando a visse.
De volta ao metrô para seguir o meu destino, o joanete começou a doer insuportavelmente. Maldizendo o vendedor de palmilhas que, fazendo se passar por ortopedista, as empurrou goela abaixo, via receita, um produto caro multiplicado por seis pares de sapatos fechados e que não estava produzindo o efeito esperado. Enquanto meu joanete gritava, eu rememorava aquele energúmeno negociante de palmilhas, que me convencera de que elas seriam a perfeita solução para a dor.
Mas, pensemos no sarau, onde Cecília estaria me esperando com um lugar guardado, momento em que poderia descansar os pés. Aproveitaríamos o evento e minha carona para casa estava garantida.
Começava a anoitecer. Fiz o transbordo para a linha lilás e desceria na estação Giovani Gronki, onde pegaria Uber até o local da apresentação. Todavia, o trajeto do metrô foi interrompido por uma pane pouco antes de chegar à estação do Alto da Boa Vista.
Sem podermos sair do vagão, o ambiente passou a ficar abafado e com isso o primeiro conflito com o elemento ar. Ou a falta dele. Veja bem: horário de pico, transbordando de cidadãos ávidos em chegar a suas moradias, os vagões fechados sem ar-condicionado, e o joanete, já sabe. Passaram-se cinco minutos, o que parecia uma eternidade. A composição voltou a operar muito devagar até chegar à plataforma e todos desceram para que o carro fosse recolhido.
Não é possível. Parecia que a maldição caíra sobre mim: sobrecarregada com a onça e o carrinho adaptado, um desgraçado de um joanete doendo, mas tudo bem, o sarau e a Cecília me esperavam. Tensionei sentar na plataforma e esperar o esvaziamento daquilo tudo, mas isso tardaria ainda mais a chegada, razão pela qual entrei no quarto veículo em meio a empurrões e tropeços. Para piorar, nesse espaço de tempo a bateria do meu celular descarregou.
Ao sair da estação, já era noite. A avenida extensa e fechada por muretas não permitia a parada de um Uber. Subi por uma rampa, passeio de pedestres com casas e pequenos comércios já fechados e com uma escuridão total. Meu medo era a inhaca do dia se estender pela noite e me apresentar um assaltante.
Não, definitivamente não pensaria o pior porque pensamentos ruins atraem coisas ruins. Pensei no quão maravilhoso foi o dia, apenas com alguns contratempos. Pensei no sarau, que a esta altura já começara. Pensei em Cecilia que me daria carona no retorno para casa.
Ufa. Parada de ônibus. Estou salva. Pelo menos por enquanto. Preparei meu Uber e por milagre apareceu o ônibus. Lotado, evidentemente, mas com a sensação de ter recobrada a sorte. Me meti no transporte e o povo me amparou com a sacola e o carrinho. Que gente tão hospitaleira. Ah! minha sorte voltou, concluí.
Uma das passageiras me indicou onde descer. Já na esquina ouvia-se uma pessoa no alto-falante apresentando os artistas e certamente Cecília estaria a minha espera, aflita pelo meu atraso e meu silêncio.
Para grande surpresa minha, a prefeitura realizava uma obra e a rua e calçadas estavam com a terra a céu aberto. Os paralelepípedos retirados seriam substituídos por asfalto e o trajeto estava uma lama só em razão da chuva que acontecera na região.
Numa das maiores capitais da América Latina onde tudo é cimento, não tive outro jeito se não afundar meus sapatos no segundo elemento da natureza. Cheguei, finalmente, com a lama decorando as bordas do sapato e cansada, mas feliz por ter encontrado o bar, que estava entupido de pessoas. Localizar uma cadeira para sentar seria uma loteria. Encontrei um lugar apenas nas escadarias do bar que davam para o primeiro piso, e bem no alto. Não era de todo mal, afinal eu teria uma visibilidade panorâmica do ambiente e poderia encontrar a amiga. Subi com meus apetrechos atrapalhando todo mundo, batendo a sacola na cabeça de um, enroscando a rodinha do carrinho no pé de outro, mas consegui.
Cadê a Cecilia? Enquanto os poetas e as declamadoras realizavam suas performances, eu caçava como uma onça algo que poderia aparentar-se com a cabeça daquela desalmada. Trinta minutos foram o bastante para desistir em curtir a programação. Saí novamente da escadaria e peguei o Uber para casa.
Não foi daquela vez. Primeira coisa a fazer quando chegasse em casa, seria telefonar para ver se tudo estava bem com ela. Entretanto, minha mente estava mais voltada para o delicioso escalda-pés de lavanda que eu prepararia, presente do Atelier Ju Rodrigues. As fragrâncias mais divinas preparadas pela Ju, especialista em perfumes, seria um fim de noite recompensador da minha fadiga, um bálsamo para lavar as impurezas do dia. Contudo, ao chegar, me deparei com nova implicância da natureza, não com o escalda-pés que tanto planejara durante o retorno, mas com uma inundação na cozinha ocasionada por uma peça quebrada na máquina de lavar.
Dia de cão, esse, hein?
Face: Sueli Gutierrez
Jornalista – Escritora – Editora SeuLivro
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