Toda mulher tem uma relação de amor e ódio com o seu cabelo. Da negra porque é crespo, da loira porque é liso, da ruiva porque é vermelho. A probabilidade de que a insatisfação e a autorreprovação possam começar a acontecer na puberdade é de 99,99999%.
Claro está, essa fase é um processo para elevar a autoestima e ser aceita no meio em que se convive, embora para as mulheres negras, a rejeição de grande parte da sociedade branca pelo cabelo crespo seja muito mais danosa em comparação aos entes do seu entorno. A leitura de trechos do livro Esse Cabelo, de Dijiamilia, tem disso. Tem a ver com uma sociedade que expele tudo que não seja espelho.
Mas voltando aos cabelos púberes, exige-se muito mais a beleza no gênero feminino. Isso é uma constatação e não, por assim dizer, um diz que me diz entre vizinhas que conversam por sobre o muro que separa os quintais. Não é um daqueles falatórios de boteco, que depois de umas biritas a razão degringola e você fica sem noção. Não é um parlapatório entre jogadores de futebol de fim de semana que se reúnem depois de uma pelada para fabular sobre a vizinha gostosa que deu trela. É um fato. É uma constatação. Uma certeza. Quero saber quem foi o inventor do cabelo.
Nesse interim sobre a guerra empregada para transformar o cabelo em uma obra de arte e reforçando minha constatação, encontro-me no quarto em que compartilhava com minha irmã, quando adolescente, de madrugada, momento em que ela perdia um tempo danado para fazer touca nas lindas madeixas, sendo eu obrigada a esperar que ela terminasse sua prática realizada religiosamente toda noite, quando retornava da escola. E lá iam-se meia-noite, uma da manhã. Quando ela terminava o procedimento, finalmente podíamos apagar a luz do quarto e dormir.
Eu brigava com ela, nem tanto por ela querer alisar o cabelo, mas porque não me deixava dormir com a sua reza. Ela molhava-o, escovava de maneira a fazer uma circunferência no couro cabeludo e pouco a pouco colocava os prendedores de cabelo.
Juro, eram prendedores de cabelo, não grampos. Aqueles que se parecem a um pregador de roupa. Uma tortura imposta pelas conveniências da sociedade patriarcal e azeda, que ela aceitava como um carma. Mas como era possível dormir com aquilo na cabeça? E por incrível que possa parecer, ela acordava triunfante, sentindo-se bela, esplendorosa, pronta para enfrentar mais um dia de trabalho e de estudos.
Entretanto, quem sou eu para criticar esse comportamento quase que obsessivo para transformar a cabeleira? Eu também não me contentava com a herança paterna de ter os cabelos extremamente loiros e lisos. Eram tão finos que não suportava uma brincadeira. Bastava um pega-pega, uma corrida de saci, uma corrida de saco, e o elástico que o prendia num rabo de cavalo caía. Qualquer movimento mais brusco, mais espevitado, o elástico deixava de cumprir a função para a qual foi destinado.
Sempre adorei os cabelos encaracolados. Associava-os a uma juba de leão e consequentemente a um personagem poderoso, imponente, marcando presença por onde passava. Por isso, enquanto minha irmã dormia com os prendedores de cabelo, eu dormia com bobes, apesar de, no meu caso, os caracóis não durarem muito tempo e murcharem ao longo de duas horas.
Presilhas, elásticos, grampos, piranhas, prendedores, lenços, absolutamente nada parava na minha cabeça. Até que um dia, chegando ao meu quase final de adolescência, bati o pé e minha mãe aceitou, enfim, que eu fizesse permanente.
Sueli Gutierrez
Autora do livro infantojuvenil “Era uma vez, Conto outra vez”. Em breve, lançamento, pela Amazon, dos livros A gata de rodas (infantojuvenil) e Lavanda (romance).
Face: Sueli Gutierrez
Jornalista – Escritora – Editora SeuLivro
Site em criação: seulivro-editora.webnode.com/
Whats: 55-11- 99197-8627