TAINÁ MAQUIAVÉLICA

“Ela é é maquiavélica”, disse uma das mulheres com a dramática ênfase no é.

Mas antes disso, no Parque do Ibirapuera, eu chamava meu sobrinho mentalmente de demônio. Ele pegava, sem propósito algum, qualquer planta no seu alcance, arrancava, amassava e jogava para o alto, como se fossem confetes. Muitas. E dava altas risadas. Na real, eu também achava muita graça disso e, como tio, eu nunca senti a necessidade de lhe dizer o que é certo ou errado nessa vida. Gosto dele demônio.

Meu sobrinho é uma criança de condomínio, com casas beges, sem convicções. Ele brinca no parquinho privado e estuda em um colégio privado. Na vida privada, de cada dez frases que a mãe, minha irmã, direciona a ele, nove são berros de repreensão. É angustiante, mas no fim do dia minha irmã sempre lhe dá um beijo na testa e o chama de príncipe completando as dez frases. Eu fico confuso.

Sabendo das privações de meu sobrinho decidi levá-lo nesse passeio, para lhe apresentar um pouco da vida pública. Começamos pelo Parque do Ibirapuera, com muito espaço para ele gritar sem que a atenção se volte para mim como um suposto pai ruim, e depois iríamos até a Casa de Pedra ou do Estevão, em Paraisópolis, conhecida pela sua semelhança involuntária com a arquitetura do catalão Antoni Gaudí.

Estevão Conceição, o morador, arquiteto, engenheiro, designer de interiores e pedreiro construiu seu palacete único e lisérgico moldando as estruturas com os mais diversos objetos, de xícaras e celulares a bicicletas, do chão ao teto. Meu sobrinho gosta de montar castelos de areia, de Lego, de cadeiras, com caixas e lençóis e achei que ele curtiria ver alguém que fez tudo isso pra valer. Disse que iríamos ver um castelo de verdade. Ele vibrou.

Tentei agendar um passeio com uma guia, mas as datas não bateram. Então pesquisei bem no Google e o trajeto pareceu simples, com um único ônibus e uma caminhada curta. Pessoas vivem, moram e caminham por lá, pensei, não pode ser difícil. Chegando, tocamos a campainha. Se ninguém atender pelo menos vemos a fachada que, dizem, lembra o Parque Güell.

Saímos do Ibirapuera, ele ainda jogando loucamente pro alto plantas de um buquê feio que ele fez, e pegamos o 6412-10, Paraisópolis, que nos deixaria no meio da Av. Hebe Camargo. De lá era só virar na Rua Herbert Spencer onde fica a casa. Hebe Camargo tinha sua coleção indecente de jóias. Herbert Spencer cunhou o termo “sobrevivência do mais apto” a partir do que Darwin disse sobre seleção natural. Achei de mau gosto um cruzar o outro no meio da maior favela de São Paulo onde falta o ouro e a sobrevivência é uma aptidão imposta e desigual.

Entreguei o celular para o meu sobrinho para que ele não se entediasse com a viagem. Na altura da Av. Morumbi me lembrei da minha não-relação com Paraisópolis quando pequeno. Eu mesmo fui uma criança privada, que estudou no Porto Seguro (ou Colégio Visconde de Porto Seguro, para soar bem elitista) que praticamente faz divisa com a comunidade. O Porto é um colégio caro, cheio de motoristas particulares, e lembro que só lá pela 5ª série eu me dei conta da existência da vizinha Paraisópolis. Minha mãe tentou cortar caminho pela Giovanni Gronchi e por um breve momento, da janela do carro, eu vislumbrei entre mansões e prediões um mar de casinhas vermelhas. Muitas. Lembro que fiquei confuso. Inclusive agora, do ônibus, Paraisópolis estava lá, mas escondida atrás de casas com muros altíssimos e cercas elétricas prisionais.

Meu sobrinho continuava atento ao celular, com cachorros bombeiros. Comecei a prestar atenção na conversa de três mulheres sentadas atrás de nós. Elas discutiam, com um gostoso sotaque pernambucano, sobre o comportamento de Tainá, que pela conversa não devia ser mais que uma pré-adolescente. Elas falavam com um pouco de raiva e também medo. A primeira disse que uma vez deram uma banana para Tainá sem que ela quisesse. Ela a descascou, jogou-a no chão e ficou observando do sofá quem ia escorregar nela. A segunda contou sobre o dia que Tainá ganhou uma boneca que não era o que ela queria e, fria, jogou no chão e disse que aquilo era lixo e ela jamais brincaria com lixo. A terceira lembrou que a mãe de Tainá foi chamada na escola da filha, porque, durante a merenda, Tainá pedia para que os outros alunos beijassem sua prexeca, ameaçando com uma tesoura quem não o fizesse. Nas narrativas, em questão de minutos Tainá foi chamada de menina má, ruim, malcriada, bruta, grossa, monstro, bruxa, falsa e, por fim, maquiavélica. Essa última me surpreendeu, primeiro, porque não é uma palavra simples de usar no dia-a-dia e, segundo, porque é um adjetivo pesado, que exige uma sofisticação e um raciocínio complexo talvez mais compatíveis com um adulto psicopata.

Mas, admito, meu sobrinho não fica muito longe de Tainá no maquiavelismo. Um dia dei um carrinho para ele que não era do desenho que ele queria. Ele jogou longe, na minha frente e me chamou de burro. Outra vez, ele empurrou o amiguinho na piscina, que não sabia nadar, só porque ele comeu um brigadeiro da mesa de doces antes do parabéns. Há outros casos. Mas são histórias e são crianças. Meu sobrinho, O Príncipe e Tainá, a Maquiavélica. Involuntários, espero, no quesito de que os fins justificam os meios.

Pedi meu celular de volta. Meu sobrinho começou um protesto, mas precisava ver o trajeto. Apontei para as casas vermelhas que começavam a surgir e disse que já eram o domínio do reino do castelo. Descemos dois pontos depois. As três mulheres também. Perguntei se sabiam para que lado ficava a Rua Herbert Spencer e a Casa do Estevão. Muito simpáticas disseram que nos acompanhariam já que era o caminho delas mesmo. Animei pensando que elas poderiam contar mais histórias da Tainá ou até me apresentar Tainá, mas meu celular tocou. Minha irmã. Atendi e em questão de segundos ela soltou: irresponsável, sem noção, louco, perigoso, assalto, sequestro, morrer, inconsequente, voltar, já. Para ela, seguro mesmo só o Porto onde ela também estudou. Agradeci as mulheres e falei que houve um imprevisto. Eu, no caso, mas tudo bem. Olhei para o meu sobrinho e ele estava vidrado observando tudo que tinha para ver naquele minúsculo pedaço do reino de Paraisópolis. Falei que não iríamos mais ver o castelo. Ele ficou chateado, mas não embirrou. Pegamos o ônibus, eu lhe dei o celular, mas enquanto houve Paraisópolis para ser vista ele ficou atento pela janela. Quando começaram as mansões ele ligou o celular e voltou para os cachorros bombeiros.

Deixe um comentário