Kuduro & cabelo duro

“Eu tenho o cabelo duro, mas não tenho o miolo mole”, cantaria Itamar Assumpção se lesse os livros de Kalaf Epalanga e de Djaimilia Pereira de Almeida. As autoficções desse par de angolanos se enrolam nas tramas do ensaio, ambos embebidos em muita música. Ambos os autores saíram de Luanda para conquistar Lisboa e daí a Europa, e curiosamente seu périplo participa tanto de sua narrativa de origem quanto sua narrativa de origem comparece na reflexão sobre tal périplo naquilo que a viagem tem de mais violenta, cruel e desagregadora. A diáspora negra, a desagregação da origem, no entanto, ao longo da viagem converte-se em descoberta e também em apreensão da própria identidade.

Afinal, ambos nasceram numa antiga colônia de Portugal que libertou-se após uma longa guerra civil e fragmentou para sempre o país. Os brancos, descendentes dos antigos colonos, ao serem expulsos voltaram a Portugal mas não se identificaram com o que conheceram, caindo sob o estigma dos ‘retornados‘. A crise econômica infinita de Angola (Luanda é uma das cidades mais caras e mais corruptas do mundo) expulsou muitos dos angolanos negros ou mestiços que tiveram sua identidade étnica temperada pela influência lusa, e, além, até mesmo pela influência brasileira – naquilo que, sabemos, ela tem de mais mítica: a ideia de uma impossível convergência de contrários, de um cruzamento de raças que criam uma unidade cultural coesa.

O racismo nosso de cada dia nos lembra o quanto essa ideia é falsa e até folclórica, mas os mitos influenciam a realidade (infelizmente alguns chegam até a virar governantes). Mais que a influência cultural brasileira, nossos laços com Angola são mais profundos: foi de lá que veio grande parte dos escravos que vieram trabalhar nas roças de cana-de-açúcar do Brasil. Não haveria Brasil sem Angola, como já cantou Jorge Ben. E como acabou de desenhar Marcelo D’Salete em seu extraordinário Angola Janga, em que narra a saga do Quilombo dos Palmares.

Infelizmente, como quase tudo no Brasil, olhamos mais para americanos e europeus do que para os africanos. Somos uma classe média envergonhada e culpada que macaqueia os ricos morrendo de medo de se identificar com os pobres – e, por extensão, com os negros. Da diáspora angolana, cuja corrente mais forte vem da cultura bantu, vem as palavras cafuné, moleque, chamego, quitanda; a capoeira; e simplesmente o assunto que nos identifica como nação – o samba (derivado do semba). Modos não-verbais, como a afetuosidade no abraço e no toque, são influências angolanas. A eles demos a mandioca, as novelas, Jorge Amado, Guimarães Rosa. Eles nos devolveram com Ondjaki, Pepetela, Agualusa. E agora, com Epalanga e Djaimilia.

Tais angolanos foram bater em Portugal onde nem sempre foram recebidos com honras. Mas, por força justamente de ocuparem este não-lugar entre o colonizado e o colonizador, como se ocupassem justamente a passagem, trouxeram alguns dos mais inventivos modelos literários dos últimos anos.

Epalanga é o lider e fundador do Buraka Som Sistema, a mais importante banda de Portugal nos últimos anos. Sua base é o kuduro, uma espécie de funk carioca ainda mais selvagem e minimalista, temperado com hip hop e harmonias árabes. O kuduro teve a mesma ascendência europeia que o funk carioca – o tecnopop da banda alemã Kraftwerk -, e é essa viagem que Epalanga irá refazer em sua epopeia Também Os Brancos Sabem Dançar (Todavia).

A estrutura deste romance-ensaio é fragmentada em pequenos capítulos que soam como contos, crônicas ou reflexões historiográficas. Começa com Epalanga ingenuamente pegando sozinho seu carro em Lisboa para fazer um show na Noruega. Mas, na divisa entre Suécia e Noruega, é parado por agentes de imigração, e percebe que está sem passaporte. Como explicar para os nórdicos que não é um traficante, e sim um músico?

Nem em um clássico como O Mundo Funk Carioca, de Hermano Vianna, temos um mergulho tão profundo e tão bem escrito em um tema musical egresso da clandestinidade e da vida bandida. Epalanga disseca a gênese do gênero, e ao fazê-lo acaba falando também de semba, maracutu, funk, samba. Ao mesmo tempo, narra sua vida desde os 17 anos em Luanda até virar um popstar português.

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Já a Djaimilia tem outro ritmo; mais compassado, suave, denso. Despontou com o inclassificável Esse Cabelo (LeYa), que critiquei para a revista Cult aqui. Curta, a narrativa também se assenta sobre a autoficção. Narrando sua história capilar desde que tem seis meses, Djaimilia reflete como o preconceito racial definido por uma parte do corpo se torna formador e deformador de uma consciência. Ela passa por muitos alisamentos até resolver assumir seu afro; muitas tentativas de parecer branca até entender-se como negra e branca ao mesmo tempo – e reinvindicar uma identidade própria, que passa pela raça mas avança na direção do hibridismo. O mais fantástico do seu texto é a forma do discurso ser moldada por esta busca pessoal, tão fluida que quase nunca sabemos se o que ela está falando é ficção ou reflexão.

É uma espécie de tratado biográfico a partir da microfísica de poder proposta por Michel Foucault. Com sagacidade analítica nada enrolada, combinada a uma prosa muito aromática, Djaimilia demonstra como o cabelo pode ser, para além dos tratamentos meramente estéticos, território de embates políticos e sociais. Preciosidade metonímica, flânerie hermenêutica do geral ao muito particular, em seu quase-romance a rapariga usa o couro cabeludo para escalpelar o colonialismo português e o padrão de beleza ocidental – que propõe parâmetros escandinavos como símbolos de sucesso físico (basta ver o elenco de nossos programas de TV e propaganda, ainda predominantemente arianos). Djaimilia pega um aspecto do problema – digamos, a ponta do iceberg – e expõe toda uma Antártida de preconceitos, opressões e prejulgamentos estéticos que a sociedade embranquecedora e machista foucaltianamente impõe às cabeças de ascendência africana.

Seu texto, no entanto, apesar de expor este processo violento e catártico, é sempre leve, saborosa e bem-humorada, e polvilha imagens, comparações e metáforas surpreendentes aqui e ali, quase uma mágica. Sugiro muito a leitura de seu segundo livro, Luanda Lisboa Paraíso (Companhia das Letras Portugal), um dos livros mais tristes que já li sobre a imigração e a impossibilidade de encontrar um lugar só seu, em que, num movimento muito parecido com o do ensaio, o processo de criação de metáforas se amolda à própria estrutura da narração. Acho que não tem muita gente escrevendo nesse nível em português.

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Se alguém estiver interessado em outros autores africanos, sugiro, na ficção, os deliciosos contos da nigeriana Chimamanda Adichie em No Seu Pescoço (Cia das Letras), escrito em inglês. Em francês, se procurar um tratado filosófico-literário-político, indico o incontornável Crítica da Razão Negra (N-1 Edições), do camaronês Achille Mbembe – uma das obras mais eruditas e iconoclastas publicadas nos últimos anos. O tipo de livro que inverte completamente a perspectiva, nos convidando a pensar em uma maneira inteiramente nova: e se a África estiver de fato no centro do mundo? E se no futuro todos nós nos tornarmos negros?

PROPOSTA

E é isso o que você vai fazer. Você vai buscar um detalhe de sua própria história pessoal e expandi-lo na direção de um ensaio sobre este detalhe. O detalhe pode ser físico, biológico, clínico, cultural, mental, espiritual, social. É alguma coisa que faz você ser você, e só você. Alguma coisa que está em você desde seu berço.

Mas, se de alguma coisa que este detalhe faz você ser você, o faz também ser outras pessoas, e muitas outras coisas: este detalhe o conecta com alguma universalidade. Você irá passear do geral para o particular o tempo todo; vai passar do ensaio à história pessoal sem dar setas; vai fazer o tempo todo o trânsito entre as coisas substantivas e as ideias reflexivas.

Portanto, abuse dos substantivos concretos e das anedotas.

E não se esqueça de que o ensaio é quando o cérebro dança. Portanto, se mexe, e, portanto, se move, em várias direções – o ensaio é uma viagem que conecta ideias entre o passado e o futuro.

Não tenha medo de ser intimista ou levar tudo para o pessoal. Tudo é pessoal na literatura, ou não é. Mas ninguém está dizendo que o pessoal não possa ser inventado. Ninguém vai saber se aquilo que você está contando realmente aconteceu. E isso não interessa para nós, e sim o jeito como você vai nos enganar.

Também não tenha medo de mergulhar em um conceito interessante que tenha surgido no meio do caminho de sua busca. A atitude mental é: você não sabe exatamente o que está procurando quando sai para escrever um ensaio.

Portanto, escreva na primeira pessoa.

Uns 5 mil toques.

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