Ilegal, imoral ou perigoso

Sonia Nabarrete   

Recebo uma caixa embalada para presente com a incumbência de entregá-la a um desconhecido em local público. Já sentindo cheiro de roubada, minha primeira reação é cair fora com uma desculpa. Mas quem pede é aquela amiga que, mais do que um marido, sempre esteve junto, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

Ela marca encontro no Instituto Moreira Salles para me entregar a encomenda, que deve ser levada a um homem no Parque do Ibirapuera. Por que não mandou pelo correio? Se era urgente, por que não recorreu a um motoboy? Alegando pressa, ela não diz o que há na caixa, nem quem será presenteado, nem quem faz depósitos nas contas da milícia que está no poder.

Com a pulga atrás da orelha, saio caminhando até o ponto do ônibus. Ao lado de perguntas que faço todo dia — Quem mandou matar Marielle? Onde está o Queiroz? — outra começou a martelar: O que há dentro desta caixa? Pelo mistério envolvido, eu me permito imaginar que carrego algo ilegal, imoral ou muito perigoso. Aliás, como tudo o que estamos vivendo desde que um capitão afastado do exército por insanidade passou a presidir o Brasil.

Seria uma arma, como aquelas que minha amiga usou muito tempo atrás, quando fez parte da luta armada contra a ditadura? Ou quem sabe uma nova droga sintética, mais potente que LSD? Talvez uma bomba? E se, por um erro de cálculo, isto explodir no meu colo agora, com esse ônibus lotado e chacoalhando sem parar?

Mataria essa gente que segue para o trabalho ou em busca de colocação. O assunto, entreouvido aqui e ali, é a greve geral contra a reforma da previdência, que vai transformar aposentadoria em lenda, e os cortes na educação, que vão acabar com as pesquisas e transformar todos em algo parecido com técnico de geladeira ou fogão.

Reparo nas pessoas ao redor e sinto uma pena danada.  A mulher com olhar sem brilho deve voltar para casa, pegar os filhos que ficaram com a vizinha, e cozinhar uma sopa rala porque a geladeira está vazia. O velho com orelhas cabeludas está sem dinheiro até para comprar as balas que o vendedor oferece. Todos parecem tristes, exceto o casalzinho de mãos dadas, que sorri aquele sorriso besta de quem está apaixonado.

Desço do ônibus, caminho até o parque e sigo as instruções dadas pela minha amiga. De longe, vejo o homem de camiseta vermelha. Mais perto, olhando bem, tenho certeza de que nunca o vi antes. Quem é esse cara? O que tem nesta caixa? Quem mandou matar Marielle? Onde está o Queiroz?

Ele acena. Eu me aproximo, ressabiada. Olho para os lados como se estivesse fazendo algo proibido. Exibo a caixa. Ele sorri, “vejo que trouxe meu presente”. Sim, eu digo, mas gostaria de saber do que se trata. Ele então avisa que vai mostrar. Suspendo a respiração. Ele remove o papel, abre a caixa e dela retira uma faca. Ele diz que não é apenas uma faca, mas a melhor do mundo, que deixaria morrendo de inveja qualquer sushiman, e que terá grande serventia.

— Ah, então você é sushiman? – pergunto, achando que matei a charada. Mas ele responde:

— Não, sou um professor que nunca vai se aposentar.

Ao virar as costas para vir embora, tenho a impressão de ouvir um “Chupa, Adélio. Agora é para valer”. Mas acho que foi só impressão.

Um pensamento sobre “Ilegal, imoral ou perigoso

  1. Já disse o poeta
    “Ai, fardo sutil
    que antes me carregas
    do que és carregado,
    para onde me levas?

    Por que não me dizes
    a palavra dura
    oculta em teu seio,
    carga intolerável?”

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