Lá eu não vou, Ronaldo!

Por Karinna Forlenza

 

Sei que queria voltar a escrever, então decidi tentar mesmo assim. Não tinha nada a perder, no máximo iria voltar para casa. Quando cheguei lá, já tinham acabado as senhas. A segurança, simpatica, me disse: pois é, muita gente está indo embora. Mas semana que vem você pode tentar de novo. Sei. Eu não sou de tentar de novo, quase disse. Onde é que vai ser o curso, por favor? Alí, ó. Dá para você ouvir o curso daquela poltrona. Nao fiquei na poltrona muito tempo – duas pessoas haviam desistido do curso e eu tava certa de ter garantido meu passe. Mas a mocinha do Sesc, a pequena bedel manda um “temos que aguardar as pessoas voltarem ou não com a senha”. Finalmente, quase dez minutos eu lá de pé na frente da turma toda, o professor liberou: olha a cara dessa daí. Deixa ela passar! Sentei felizinha no meu lugar, tipo boa moça que conseguiu uma vaga no curso de crônicas (ou ensaio, ou sei lá. Tudo quase igual, como vim a descobri depois).

Professor de literatura eu nunca tinha conhecido um depois de adulta, mas imediatamente fiquei à vontade no ambiente. Acho que aquela menina que não entrou em Letras na USP tava arrasani dentro de mim, por que ela anotou tudo, tudo, tudo – e no computador – para reler depois. Estava em êxtase, na real, até quando o mestre – e ele falava mal para caralho dos Bolsonaro tudo, o pai, os filhos 01, 02, 03, e tinha boca suja também, que fez com que ele ganhasse de cara uns pontos comigo,  falou umas bobagens tipo tal autor fez coisa de “menina”. Oi? E falou mal da Eliane Blum. Mano, você é um cretino de falar mal da Eliane Blum. Ela é musa. Perdeu os pontos.

Aula chega ao fim e ele propõe que a gente escreva algo que tem a ver com ir do ponto A pro ponto B, sendo esses nossos lugares favoritos de São Paulo, tirar a bunda da cadeira e no fim fazer o tal ensaio sobre levar um objeto X de um fulano A para um Fulano B. Sorteamos os pontos A e B – e eu fiquei com a tarefa de ir da Casa das Rosas até a puta que o pariu, professor! da Chácara do Jockey. Eu tenho dois filhos para criar! A casa para cuidar. Nao tenho empregada. E eu trabalho. Namoro. Jogo vôlei com as veteranas – na verdade comecei agora, não acerto uma porra de uma bola. As mulherada lá acharam que por eu ser alta eu ia arrasar. Mas não. Só bola fora. Professor, sério? Chácara do Jockey? Te odeio.

Enfim, eu só tinha disponibilidade naquela quarta feira à noite que nem tava tãaaaao fria assim para pelo menos chegar na Casa da Rosas, que era logo ali do lado do SESC Paulista, o do curso. Então fui eu lá, sei lá, prestar atençao nas rosas, ou nas pessoas, ou na minha fome mesmo – por que eu tava com fome. E ia ter que chegar em casa e cozinhar para mim, já que não tenho mais empregada, e meu namorado não ia me buscar pois “o curso ia acabar tarde. Ai, baby, a gente se vê outro dia”. Pensei que ao menos um copo d’agua na Casa das Rosas eu ia conseguir, quem sabe um pão de queijo naquele restaurante lá no fundo, sob as árvores – mas nada. Atrás do restaurante, emoldurando todo o conjunto, um prédio enorme, cuspindo engravatados e moças de mecha larga loira no cabelo, suéter e calça preta justa com sapato da loja de 59,99. Odeio sapato de 59,99. Para quê esse 0,99? Puta enganação. Quem vai dar os 0,01 de troco se eu pagar com 60,00 em dinheiro?

Sentei lá naquele terraço e me propus a observar meu entorno “como uma ensaista”, até que algum segurança viesse me pedir para me retirar, senhora, a Casa das Rosas já vai fechar – o movimento das pessoas: e havia umas mais calminhas, talvez tivessem meditado ali no jardim lindo ou assistido a um sarau, e outros mais apressadinhos, tipo uns três mocinhos engravatados com sapatênis, sendo um deles fumando um cigar… mas, opa! O que tem ali, no meio do jardinzinho das rosinhas todas organizadinhas? Uma luz acende e apaga lá, ninguém viu? Vou lá. Chego perto e é um celular, apitando para ninguém e
– Alô?
-Alô. Boua noite. Você extár com meu mobile?
Que sotaque é esse, mano? Francês?
– Eu não tô com nada seu, seu moço. O senhor que deixou cair aqui na…mas onde mesmo o senhor perdeu seu celular? Desconfiei.
– No Casa essa, no Avenida Paulista, onde tem os florres.
– Ah tá. Sei. Táqui comigo sim, acabei de achar.
– Oh, que bon! O senhorra pode me aguardar, por favor? Eu estou voltando para buscarr o mobile.
– Ahn. Onde está você, seu moço?
– Eu estou na trrem, perrto do Marrginal Pinheirrôs. Devo chegarr em quarrant e cinc minuts.
– Olha moço – como o senhor se chama? eu não tenho como ficar até as 22:30 aqui te esperando. Amanhã se quiser eu ponho num Uber e ele leva para você.
– Ah, oui? Obrrigadô. Trés gentil, madame!
– Nao sou madame. Onde o senhor mora?
– Ah, desculpe, madame. Eu morrô longe, perto de um lugar – pergunta em francês para outra pessoa – quoi? Chacarra quoi? Chacarrá do Jockey, madame.
– Ah, não, meu queridô! O senhor, você, monsieur, o caralho, só pode está de imensa sacangem comigo! Repitê sivuplê: o senhor, você, messiê, mora onde??
– Perto do Chacarrá do Jôquêi, madame!
– É pegadinha isso? Onde estão as câmeras?!
Pardon?
– Se não for pegadinha, senhor, você, messiê quero saber POR QUÊ o senhor, a sua família, sei lá quem mais, mora nesse fim de mundo, messiê? Pois saiba, eu não vou lá para te entregar essa porcaria de seu celular, mobile, mobilê, celulê. Se o senhor, messiê, voismecê, usted quiser, o senhor vem na semana que vem buscar.
– Está bem, madame, não precisa ficar nerrvosá.
– Não estou nerrvosá. E não sou madame. Então é o seguinte, anote aí: na quarta que vem, não hoje, só semana que vem, o senhor vai no 15o andar do SESC Paulista às 19hs em ponto e pegue seu celular com um amigo meu: Ronaldo Bressane. Anotou? Ro-nal-do, Bre-ssa-ne.
Oui, je anotê, madame. Monsieur Brrréssáne, Rrônaldô. Como o jogadorr, n’estce pas?
– Isso, isso, como o jogador. Ótimo. Então, quando senhor chegar lá, pegue seu celular com o Rronáldô e aproveite para dar um recado meu.
– Clarrô, madame!
– Não sou madame. Apenas diga para ele que o texto eu já fiz, mas que na Chacarrá do Jôquêi eu não vou nem fudendô.

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