O que é o ensaio?

Montaigne

Mario de Andrade costumava dizer que tudo é tudo o que chamamos conto. Do mesmo modo, ensaio pode ser tudo o que chamamos ensaio. Talvez o ensaio seja tão abrangente que até o que não chamamos de ensaio também possa ser chamado de ensaio. Podemos ensaiar algumas hipóteses para entender este gênero, o mais fluido de todos. De todos, talvez seja o gênero que mais assume a cara de quem escreve. O gênero mais maleável. Maleabilidade, em química, é a capacidade de um elemento transformar-se sem perder a sua essência. Esta capacidade se relaciona com a ductibilidade, que é a propriedade de um elemento moldar-se sem se fraturar. Alumínio e cobre são dúcteis e maleáveis, pois se esgarçam ao máximo, até se tornarem um fio finíssimo. O material mais maleável e dúctil de todos é o ouro. Este curso se dedica a investigar como o ensaio pode conversar com outros gêneros, como a reportagem jornalística, a ficção, a autoficção, o diário, a crítica literária e até mesmo a poesia. A ambição aqui é a de realizar um texto padrão ouro, que seja maleável mas nunca rompa o seu fio.

Existem algumas hipóteses para entender o ensaio. Uma delas registra o seu surgimento em Os Ensaios, do francês Montaigne, que os escreveu faz 500 anos. Montaigne era um nobre rico, prefeito de Bordeaux, que tinha tido uma formação intelectual sólida e era meio antissocial. Em dado momento ele resolveu se trancar em seu escritório e escrever sobre tudo o que lhe apetecesse. Sobre comida, sobre religião, sobre a educação dos filhos, sobre vinhos, sobre os tupinambás… A graça dos ensaios de Montaigne está justamente na etimologia dupla da palavra “essaier”, em francês, que pode significar tanto um ensaio, no sentido de que se pratica alguma coisa antes de uma apresentação final, quanto um teste, no sentido de que se coloca uma ideia, uma tese, uma formulação à prova. Existe ainda um outro par de etimologias, aproximando “essai” de balança, ou de pesar, “examinar”, e também de “enxame”, como de abelhas ou pássaros. Ou seja, o ensaio não parte de uma tese e então procura elementos para comprová-la: antes, ele procura esta tese. Ele procura esta tese sempre sendo ponderado, usando sua balança, e passeando entre ideias dispersas, como em um enxame.

Neste sentido, o ensaio flerta com o jornalismo no que ele tem de mais nobre: é a arte da dúvida. Ele é o exato oposto, por exemplo, de um texto religioso, ou de um texto técnico, ou mesmo de um texto científico. Um bom ensaio não respeita nem Deus nem a dinâmica dos materiais nem a lei da gravidade. Assim, ele estende a mão ao leitor, relativizando a autoridade de quem escreve. Talvez por isso o ensaio tenha demorado tanto a engrenar em países de cultura ibérica, onde funciona muito a lei do doutor, que identifica na fonte do saber uma espécie de autoridade moral e política. Muita gente ainda confunde ensaio no Brasil com monografia, ou tese.

O ensaio é sinuoso, é digressivo, foge do assunto, pega outro assunto pelo rabo, abre parênteses e não os fecha, tem iluminações súbitas quando ninguém estava esperando, entra em becos sem saída, contradiz-se, enxerga-se no espelho e dá risada do que vê. É nesse sentido um parente do stand-up comedy (claro que aqui estou pensando mais no Louis CK do que no Rafinha Bastos). A melhor definição pra mim é da ensaísta Cinthia Ozick:

o ensaio é o movimento de uma mente quando brinca”.

É isso: o ensaio se move, não está parado em ideias preconcebidas. O ensaísta é um flâneur das ideias. Ele vai imprimindo a sua subjetividade sobre a realidade, sem se deter em determinados pontos, como um andarilho vai passeando pelas ruas, sem um objetivo definido de chegar a algum lugar – mas, por causa disso mesmo, acaba chegando. A realidade é uma paisagem mental para o ensaio.

O escritor argentino César Aira diz que o ensaio é o lugar inusitado onde se encontram saberes diferentes. Já a professora Christy Wampole sustenta que o ensaio pode atuar como um DJ, sampleando, mixando e tirando o novo do já visto e ouvido. Essa ideia rima com a proposta de um dos grandes ensaístas do século 20, Walter Benjamin, que queria criar um ensaio só usando epígrafes, citações e ditos alheios editados de uma maneira singular. Ele via o ensaísta como um pescador de pérolas, um sujeito que leu uma biblioteca inteira para colher meia dúzia de citações que, juntas, poderiam formular ideias inteiramente novas. Este conceito de ‘pescador de pérolas’ está exposto à maravilha em um ensaio-perfil escrito pela filósofa Hannah Arendt no livro Homens em Tempos Sombrios (Penguin).

Arendt conta que o autor de Magia e Técnica, Arte e Política somava uma coleção de 600 citações. Notório bibliófilo, Benjamin ansiava por um ideal de ensaística todo estruturado em citações – “montada com tanta maestria que dispensaria textos de acompanhamento”. Este método de “perfurar” um texto para obter o essencial em forma de citação “é o equivalente moderno das invocações rituais, e os espíritos que agora surgem são aquelas essências espirituais de um passado que sofreram a ‘transformação marinha’ shakesperiana dos olhos vivos em pérolas, dos ossos vivos em coral”, diz Arendt, citando A Tempestade.

“Para Benjamin, citar é nomear (…), trazer a verdade à luz”. Citar, para Arendt, ou seja, falar através de vozes alheias, é a maneira como Benjamin escolhia para lidar com o passado. O pescador de pérolas desceria ao passado para trazer à superfície “fragmentos de pensamento”, que então ganham novo contexto.

Pai de todos os ensaístas, Montaigne elegeu como dístico a pergunta “Que sei eu?”, inscrita justamente ao lado de uma balança. Nesta questão se embutem tanto a humildade em relação a um assunto em particular quanto a perspectiva subjetiva. Cada ensaio de Montaigne é um espelho onde ele pinta um auto-retrato de sua consciência aguda. Segundo o ensaísta Jean Starobinski, Montaigne “não nos oferece nem um diário íntimo nem uma autobiografia. Ele se pinta olhando-se no espelho (…), exprimindo sua opinião sobre a presunção, a vaidade, o arrependimento, a experiência, a razão de Estado, o massacre de indígenas, as confissões obtidas sob tortura (…). No ensaio segundo Montaigne, o exercício da reflexão interna é inseparável da inspeção da realidade exterior. É só depois de ter abordado as grandes questões morais, escutado a sentença dos autores clássicos, deparado com os dilaceramentos do mundo presente que, buscando comunicar suas cogitações, ele se descobre consubstancial a seu livro, oferecendo de si mesmo uma representação indireta, que só pede para ser complementada e enriquecida: ‘A matéria-prima do meu livro sou eu mesmo’.”

Starobinski lembra que, para Montaigne, escrever é ensaiar de novo, com forças sempre jovens, num impulso sempre primeiro e espontâneo, tocar o leitor na carne, arrastá-lo a pensar e sentir mais intensamente. “E às vezes também surpreendê-lo, escandalizá-lo e incitá-lo à réplica.” Montaigne dizia: “a fala é metade o que fala e metade o que escuta”. Starobinski sugere ao ensaísta contemporâneo identificar-se com a liberdade de Montaigne, que fugia à linguagem impessoal hoje vigente nos ensaios das ciências humanas, e encontrar a sua própria voz usando todo corpo de saber disponível. “Trata-se de tirar o melhor partido dessas disciplinas e então tomar a dianteira sobre elas, uma dianteira de reflexão e liberdade, em sua própria defesa e a nossa (…) A partir de uma liberdade que escolhe seus objetos e inventa sua linguagem e seus métodos, o ensaio deveria aliar ciência e poesia.”

Ciência e poesia. Pesquisa e reflexão. Fora e dentro. Assim como se move, o ensaio também faz o ensaísta se mover. Muitas vezes é seu pensamento que faz com que o ensaísta se coloque em marcha, se mexa, tire a bunda da cadeira para investigar a realidade. E daí uma impressão sobre o mundo pode fazer com que o ensaísta se torne um repórter, um viajante, um pesquisador, um passeador. Mas ele pode mesmo duvidar da realidade, duvidar de como a realidade se estrutura, duvidar de seus sentidos. E traz da realidade uma reflexão.

Lembre-se: o ensaísta coloca a realidade em xeque. Ele não acredita em nada. O propósito do ensaio é continuar ensaiando, e não chegar a uma conclusão. Deixemos as conclusões para os fanáticos religiosos e as inteligências artificiais. O ensaio induz o ser humano ao erro, e como só o erro nos diferencia como humanos, portanto só o erro pode nos levar a eventuais acertos.

Quero ler aqui um trecho de um escritor pouco traduzido entre nós, o americano Nick Tosches. É um texto que começa por uma irritação, e é sempre bom começar alguma coisa irritado. Mas, em vez de ficar expondo sua irritação nas redes sociais, como fazem 99% das pessoas inutilmente, Tosches usa aquela irritação como motivação para uma pesquisa. Uma pesquisa nascida da irritação que depois se torna uma fantasia, mas mais tarde, depois de uma viagem muito errática, chegará a quase uma epifania. É um livrinho bem pequeno que foi editado pela Conrad há uns 10 anos, e se chama A Última Casa de Ópio:

Tosches não tem medo de ser violentamente pessoal na defesa de suas opiniões, que podem ser meio estapafúrdias, mas se provaram certeiras depois – a gentrificação tornou qualquer experiência de prazer em um turismo vulgar. Então ele busca o contrário do turismo: ele busca a experiência utrapessoal, e esta só pode resultar de uma inquietação existencial. Este texto, que mescla ensaio, reportagem e relato pessoal, acaba levando o autor ao graal de sua busca: a última casa de ópio funcionando no Oriente. Sugiro muito que vocês busquem o livro na Estante Virtual.

Bem, então, como vimos, o ensaio é um texto fortemente pessoal. Próximo passo: a crônica, o mais subjetivo dos gêneros literários, filho direto do ensaio.

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