A crônica e a leveza

No ensaio sobre a história do gênero no Brasil, o professor Alexandre Eulalio afirma que uma das máscaras do ensaio, a crônica, é sua forma mais praticada e popular no país. A crônica nasce com craques como João do Rio, e depois Lima Barreto, ainda muito aparentada à reportagem e ao comentário de uma atualidade – daí o nome “crônica”, pois está muito atrelada ao espírito do tempo, além de estar conformada, a princípio, em um jornal.

Mas é só no período de ouro da crônica, os anos 60, que surge um jeito totalmente brasileiro de cronicar, sob a sombra enorme de Rubem Braga. Na esteira vêm Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles e muitos outros, que aproximaram aquele texto tanto da poesia quanto da reflexão filosófica, e às vezes também da ficção pura. Um texto que cabe em um espaço pequeno, entre 3 e 10 mil toques, perfeito para jornais e revistas de grande tiragem, mas que passam a ser reunidos em livros e antologias, demonstrando a profundidade do gênero.

“A passagem da objetividade primitiva para um subjetivismo lírico mais ou menos radical corresponde a uma autêntica revolução nesse processo de focalizar a realidade, tornando o ensaio próximo da poesia pelas muitas possibilidades do flagrante lírico, mudando o ponto de vista exterior do cronista para o interior do sujeito, enriquecendo infinitamente as possibilidades do flagrante humano”, escreve Eulalio.

Temos aí então um primeiro passo excelente para começar a praticar o ensaio no que ele tem de mais espontâneo e leve. E a leveza, segundo Italo Calvino, é o ato de contrariar o peso do mundo, aliviar a espessura de tudo aquilo que obscurece o texto do mundo e nos obscurece. A leveza é uma espécie de pacto a estabelecer com a transparência. E, progressivamente, deverá tornar-se um estilo, uma dicção, um modo esperançoso de habitar a nossa história.

Com Calvino aprendemos duas coisas importantes sobre a leveza: a primeira de todas é que ela nos pede uma arte de resistência, pois só reconquistamos a leveza a custo de uma paciente luta; a segunda é a necessidade de ativarmos a nossa capacidade de deslocação (na verdade, só um olhar peregrino possui a agilidade espiritual para não se deixar sequestrar pelo desânimo). Daí Calvino lembrar o verso de Paul Éluard: “Ser como o pássaro, e não como a pluma”. A pluma não move, é movida; o pássaro carrega em seu voo a intenção.

“Cada vez que o reino humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que (…) eu devia voar para outro espaço. Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle”, diz Calvino em suas Seis Propostas Para o Próximo Milênio.

Alguns aspectos deste gênero:

• a opinião pessoal
• uma perspectiva muito definida
• o subjetivismo
• o realismo
• um tema que norteie todo o texto
• o talento para a conversa fiada e livres associações
• o talento para a flânerie e para a vagabundagem
• o uso de anedotas e historietas
• o tom leve, de conversa, de papo furado
• dados e informações em flerte com o relato jornalístico
• lembranças e sonhos em flerte com o relato memorialístico
• o olhar para as coisas como se em visita a um país estrangeiro
• a percepção aguda sobre detalhes aparentemente inúteis
• uma distraída busca por epifanias

e principalmente:

• FALE DO QUE VOCÊ CONHECE.

Melhores cronistas em atividade:

Antonio Prata, Xico Sá, Humberto Werneck, Tati Bernardi, Fabrício Corsaletti, Anderson França, Milly Lacombe, Leo Aversa, Joaquim Ferreira dos Santos.

(Verissimo está na categoria Verissimo.)

LEITURAS

Sobre o tom, a observação do detalhe, o perambular, a conversa fiada, o olhar do estrangeiro:

Crônica

• [EPIFANIA] “Pedaço de pau”, in 200 Crônicas escolhidas, de Rubem Braga [Record]

“Domingo, manhã de sol, na beira do Sena. Faço um passeio vagabundo e olho com preguiça as gravuras de um bouquiniste. Há um homem pescando, um casal a remar em uma canoa, o menino sentado no meio do barco. Há muita luz no céu, nas grandes árvores de pequenas folhas trêmulas, na água do rio. Junto de mim passa um casal de mãos dadas. O rapaz e a moça se parecem, ambos têm os olhos claros, o jeito simples, a cara mansa. Vão calados, distraídos, devem ter vindo de alguma província; dão uma ideia de sossego e felicidade tão grande. Parece que a vida será sempre essa manhã de domingo; eles terão sempre essas roupas humildes e limpas, essas mãos dadas sem desejo nem fastio, essa doçura vaga. Ficarão sempre assim, tranquilos e sem história, bem-comportados; a calçada em que andam parece estima-los e eles estimam as árvores, a ponte, a água. São tão singelos como dizer bom jour.

À sombra de uma árvore, junto ao Pont Royal, vejo um velho gordo, em mangas de camisa; pôs uma cadeira na calçada e olha o rio, o palácio do outro lado, a mancha branca do Sacré-Coer lá no fundo. Deve ser um burguês, um comerciante, que se dispõe a gozar da maneira mais simples o seu domingo. Passo perto dele e tenho uma surpresa: sob os cabelos despenteados a cara gorda é revolta e amarga, como a de um general mexicano que perdeu a revolução e o cavalo, ficou a pé e desacreditado. Reparo melhor: ele é cego. Está com uma camisa limpa, goza o vento leve na sombra e não vê nada dessa festa de luz que vibra em tudo. Imagino que essa luz é tanta que ele deve sentir sua vibração de algum modo, e não apenas pelo calor, alguma vaga sensação na pele, nos ouvidos, nas mãos. Talvez seja isso que ele exprima, mexendo vagamente os lábios.

Como tive vontade de dizer bom jour ao casal, tenho vontade de me sentar ao lado do cego, fazer com ele uma longa conversa preguiçosa. Falar de quê? Talvez de cavalos; cavalos de general, cavalos de carroça, cavalos de meu tio; casos simples de cavalos.

Ou quem sabe ele preferia conversar sobre frutas; provavelmente diria como eram grandes os morangos antigamente, numa chácara da infância. Também sei algumas histórias de baleias; mesmo já vi uma baleia. Todo mundo gosta de conversar sobre baleias. Hesito um segundo, e subitamente penso que se parar ou diminuir o passo, agora que estou a um metro de distância, ele voltará para mim os olhos cegos e inquietos.

— Um cego tem bem direito ao seu sossego no domingo.

Formulo esse pensamento, e uma vez que ele está mentalmente arrumado em palavras, eu o acho sólido, simples e gratuito como um pedaço de pau. Sim, há um pedaço de pau sobre o muro. Jogo-o lá embaixo, na água quase parada. Parece que joguei dentro da água meu pensamento; fico vagamente vendo os círculos de água, com a alma tão simples e tão feliz como… como, não sei. Como um pedaço de pau. Um pedaço de pau repousando na manhã de domingo.”
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• [TESE]
“Copo de requeijão”, in O espalhador de passarinhos, de Humberto Werneck [Dubolsinho]

• [OLHAR ESTRANGEIRO] “Apocalipse nunca”, in Vai Brasil, de Alexandra Lucas Coelho [Tinta-da-china]

1 No dia em que mudei para o meu primeiro subaluguer no Rio de Janeiro já era de noite. Ao começo da noite, no Rio, há uma hora a que as plantas começam a tremer, e então cai o primeiro pingo. Foi quando comecei a pôr a bagagem no passeio. Entre as malas e os sacos caiu o primeiro pingo. Eu estava a sair da casa emprestada onde dormira uma noite para a casa subalugada onde iria dormir um mês. Um lisboeta no Rio é um inquilino de baixa renda, e portanto isto tem de ser por etapas, como a bagagem. Quando o táxi chegou já chovia, mas o taxista saiu e ajudou.

Dizem-me que em Buenos Aires existem taxistas ainda mais encantadores que os do Rio, mas nunca estive em Buenos Aires. Com a camisa pingada de chuva, o taxista sentou-se ao volante, olhou para trás a sorrir, e quando ouviu o endereço, a uns míseros dez reais de distância, continuou a sorrir.

É por isso que o apocalipse nunca vai acontecer no Rio de Janeiro. Os cariocas têm de ganhar a vida como toda a gente, mas nunca a perdem por causa disso.

2 O dia desta minha mudança foi o primeiro que passei no Complexo do Alemão, levada por um taxista que se chamava Mozart. No Rio hoje conhecemos um Mozart e amanhã um Marconi. O meu Mozart mora no Alemão, o meu Marconi mora na Rocinha, e essa é outra das razões por que o apocalipe nunca vai acontecer no Rio de Janeiro.

Nada é demasiado grande para um carioca. Ele pega ónibus para Copacabana, fica de pé 12 horas no átrio de um edifício fazendo segurança, no fim do turno pega ónibus de volta para a Rocinha, e à noite senta-se num tijolo a ver a mulher dançar funk com o bebé no colo. Ou cozinha, limpa casa, atende telefone. E já passou fome, quem sabe ainda passa. Mas vai na praia, bate bola, batucada, canta.

Carioca pode com tudo: da derrota do Flamengo ao nome de um génio.

Ele mesmo é uma forma de génio.

3 Podemos chegar a alguns lugares sem saber nada. Já ao Brasil, chegamos sempre com excesso de bagagem. Piadas, salamaleques, mal-entendidos de 500 anos.

Sabemos o que achamos que sabemos, e não nos conformamos com o que acham de nós.

Fui ler aqueles dois best sellers, 1808 e 1822, li um-e-meio, não me sai da cabeça a imagem de D. João VI sempre lambuzado, com franguinhos escondidos nas mangas do casaco. Suponho que cabe na categoria do entretenimento.

Espelho meu, espelho meu, há alguém mais feio do que eu? É a angústia do colonizador diante do colonizado. Choque e espanto.

Ainda bem que não tenho 20 anos, nem 30. Podia dar-me para o nacionalismo, ou o seu contrário.

Nomes do diabo, antes os de João Guimarães Rosa.

4 Onde íamos? Dentro daquele táxi nocturno, a caminho do meu primeiro subaluguer.

Em São Paulo as casas são mais baratas, dizem-me todos os paulistas. Eu gostei de São Paulo não lembrar Portugal. O que é velho no Rio lembra Portugal. Um paulista disse-me uma coisa duplamente cruel. O Rio é preguiçoso, esbanjador, decadente: ainda vive na corte de D. João VI.

Quem tenha experiência com cariocas no que respeita a combinações já terá dito pior, depois de esperar horas por alguém, ou dias por um telefonema, ou toda a vida por um pedido de desculpas que nunca vai existir. Até perceber que para o carioca aquilo não tem desculpa porque não tem culpa.

Os paulistas podem dizer coisas cruéis dos cariocas. Já é mais difícil imaginar os cariocas a dizerem coisas cruéis dos paulistas. Suspeito que se estão nas tintas.

Há uma imunidade no carioca. Uma soberania.

Amanhã o mundo acorda e o Rio está no topo do mundo.

Mas nunca saiu de lá.

5 Quando o táxi parou, saí de guarda-chuva para tentar tirar as bagagens e ao fim de um minuto estava ensopada. Entretanto, como se nem pingasse, o taxista já ia tranquilamente com uma mala nos braços, a caminho do portão. Corri para tentar cobri-lo com o guarda-chuva e ao mesmo tempo abrir o portão. A chuva do Rio pode ser cachoeira. Caía no chão a ribombar e nenhuma das minhas chaves abria.

– A senhora está nervosa, deixe que eu abro.

E deixando a mala do táxi à chuva, o taxista abriu o portão e levou a mala até um telheiro. Foi então que o portão se fechou connosco do lado de dentro, e a chave do lado de fora, e a mala do táxi aberta, aliás todo o táxi aberto, e tudo isto cada vez mais à chuva.

Procurámos campainhas, botões, fios, qualquer coisa que abrisse o portão do lado de dentro, mas nada. Então vimos duas cabeças passarem do lado de fora e berrámos, ou antes, eu berrei, que rodassem a chave para nos libertar.

Quando enfim conseguiram, e enfim conseguimos levar toda a bagagem para o átrio certo, o taxista continuava a sorrir como se tivéssemos saído da piscina. Não se chamava Mozart nem Marconi. Era só Marcelo, mas nascido e criado na favela como eles. Numa das favelas do Complexo do Alemão.

– Não sei como lhe pagar.

– Que nada, são dez reais.

O preço normal de uma corrida sem chuva, sem bagagem, sem apocalipse.

Paguei 50 e à primeira o taxista Marcelo não quis aceitar. Era como se ficasse por conta da história que toda a dificuldade dá. Subiu a enxugar-se um pouco e desceu dando as boas-noites.

O Rio esbanja mas é connosco.

• [NOSTALGIA GEOGRÁFICA] “Perdizes”, de Antonio Prata (in Meio Intelectual, Meio de Esquerda, Ed. 34)

“Paulista”, de Fabrício Corsaletti (in Perambule, Ed 34)

• [FLÂNERIE] “Sobrevoando Ipanema”, de Paulo Mendes Campos [O Amor Acaba, Cia das Letras]

Sobre como observar todo o espaço ao seu redor, o olhar do repórter (que por acaso também é uma ótima cronista e ficcionista):

Reportagem

“1. Chegada”, in O Livro Amarelo do Terminal, de Vanessa Barbara (Cosac Naify)

PROPOSTA

O trecho acima se relaciona à nossa proposta para a próxima aula. Que é muito simples. Não se escreve crônica com a bunda na cadeira. É preciso que o cronista tenha andado bastante, conhecido muito geografia — tanto cartográfica quanto humana. É preciso olhar para o lado de fora para poder imprimi-lo com seu sentimento interior.

Então a proposta é que o escritor ANDE, se coloque em ação. Procure andar de ônibus, de metrô, de bicicleta, a pé. Não ande de carro nem de helicóptero, e táxi só em último caso.

Você vai escrever 3 a 4 mil toques no máximo sobre o percurso que faz do lugar A para o lugar B para levar o objeto X para a pessoa Y.

Levar o objeto X para a pessoa Y é só um pretexto para seu texto, mas você deve relacionar este pretexto ao foco da sua crônica – que é sobre o que você vê do lado de fora e o que sente do lado de dentro.

NÃO use advérbios nem substantivos abstratos. RESTRINJA o uso de adjetivos. PREFIRA símiles, metáforas e comparações.

O percurso será extraído dos dois lugares de São Paulo (A e B) de que você mais gosta.

Mãos à obra.

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